Cristina cria museu em ex-centro de tortura e irrita ONGs

Para Pérez Esquivel, o governo aproveitou obra em instalação para apropriar-se da políticade direitos humanos

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2015 | 02h01

Ao reabrir ontem como um museu interativo o edifício que abrigou o maior centro de tortura e extermínio da ditadura argentina (1976-1983), a presidente Cristina Kirchner emocionou alguns sobreviventes e enfureceu organizações de direitos humanos. Segundo estas, a alteração na estrutura da Escola de Mecânica da Marinha (Esma, pelas iniciais em espanhol) compromete o reconhecimento do lugar por testemunhas.

A repaginação kirchnerista mais controvertida é a do Cassino dos Oficiais, ambiente reservado a torturas sistemáticas. Depois de interrogados, subversivos saíam dali para os chamados voos da morte, em que eram jogados vivos no Rio da Prata. Sobre as janelas verticais do salão, agora deslizam lonas brancas a cada apresentação. As luzes se apagam e nelas são projetadas fotos e informações dos algozes. Terminado o ato, o equipamento é recolhido mecanicamente, detalhe que não impressiona grupos como o Serviço Paz e Justiça, comandado pelo Prêmio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel.

"O governo inventou um museu da memória com a intenção de se apropriar da política de direitos humanos. Da memória, só fica o que eles pensam que seja memória", disse ao Estado Pérez Esquivel. Sua agrupação e outras usavam o edifício para visitas guiadas e palestras até a decisão de transformá-lo em museu - palavra vetada pelo kirchnerismo, que usa "centro de memória". "Não nos consultaram. Nos jogaram na rua, com a cumplicidade do governo municipal, de Mauricio Macri (principal candidato opositor na eleição de outubro), que administrava o prédio, a troco de alguma coisa", reclamou Pérez Esquivel, indeciso sobre visitar o lugar.

A indignação é compartilhada pela presidente da Liga Argentina pelos Direitos do Homem, Graciela Rosenblum - pelo menos outras três entidades semelhantes estão contra a obra. Segundo Graciela, as vítimas de tortura eram vendadas ao passar por castigos físicos no Cassino dos Oficiais. Não restou nada familiar aos outros sentidos.

"Os sequestrados caminhavam de olhos vendados e com grilhões. Sua percepção de onde estavam tem a ver com ruídos, sulcos nas paredes ou com o pouco que podiam identificar sob a venda, como o piso", sustenta. No piso e nas paredes do salão, agora reluz o branco.

De acordo com Graziela, há sobreviventes que não se animaram a ir ao lugar, mais de 30 anos após o fim da ditadura. "Cada testemunho é único, é uma reparação para ele. Por mais que o lugar tenha sido identificado como centro de tortura, será tirada dessa pessoa o direito de fechar uma etapa de sua vida, de falar por quem não está."

O governo garantiu em comunicado que o espaço de 5 mil metros quadrados foi remodelado com cuidado, para que o público não interfira em provas, o que poderia beneficiar militares em julgamento. "Aqui há uma vitória da vida sobre a morte, da pátria sobre a antipátria", disse Cristina no discurso transmitido em rede nacional - a 18.ª do ano, a cinco meses das eleições presidenciais. Após o discurso, ela passeou pelas dependências da Esma. O governo de Carlos Menem pretendia derrubar o prédio, por onde passaram pelo menos 5 mil detentos, para fazer um parque.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.