Cristina cria secretaria do pensamento

Objetivo do governo é intensificar propaganda oficial e reescrever a história da Argentina

Ariel Palacios, Correspondente - O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2014 | 02h04

BUENOS AIRES - Coordenar o "pensamento nacional". Essa será a função da secretaria da Coordenação Estratégica do Pensamento Nacional, criada por decreto da presidente Cristina Kirchner, publicado ontem no Diário Oficial. O escolhido para o cargo é o filósofo e ex-candidato a deputado pelo kirchnerismo, Ricardo Forster.

O objetivo da secretaria, que estará na órbita do Ministério da Cultura, é o de "projetar e coordenar o pensamento nacional, ajustado com as diretrizes que a secretaria definir". O órgão, encarregado de estimular a "percepção do ser nacional", também financiará a produção de filmes que serão distribuídos como "material de formação". A referência ao "ser nacional" causou críticas, já que era uma expressão que a ditadura militar utilizava para exaltar os "valores" patrióticos e criticar a "subversão".

Forster, derrotado nas eleições parlamentares de outubro, tornou-se conhecido nos últimos anos por ser um dos líderes do grupo Carta Aberta, composto por intelectuais que apoiam o kirchnerismo e relativizam casos de corrupção da Casa Rosada.

O filósofo, que se define como "um democrata de verdade", ficou surpreso com a designação, já que foi informado pelos meios de comunicação. "Espero que me telefonem para me avisar de forma oficial", disse. Forster afirmou que a nova secretaria "não será um comissariado político".

Há vários anos, Cristina afirma que é preciso vencer o que denomina de "a batalha cultural", expressão usada pela Casa Rosada para denominar a luta do governo para ocupar a maior parte possível de espaço na mídia. Com esse objetivo, o governo subsidiou a produção de séries e filmes que exaltam figuras da história argentina admiradas por Cristina.

Há três anos, o governo Kirchner criou outro organismo controvertido, o Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Ibero-americano Manuel Dorrego, ligado ao Ministério da Cultura, que funciona com fundos públicos.

Cristina, na ocasião, determinou que a revisão da história do país será uma atividade controlada pelo Estado. Na cabeça da entidade, colocou o historiador Mario O'Donnel, um declarado admirador dos caudilhos argentinos.

Nessa "guerra cultural", o governo também criou as primeiras histórias em quadrinhos estatais da América do Sul, distribuídas gratuitamente pela agência Télam aos jornais do país, especialmente do interior. A intenção é reduzir a influência de quadrinhos estrangeiros, exaltar valores nacionais e apontar os "traidores da pátria".

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