Pablo Molina/AP
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Cristina delega poder e enfrenta cirurgia para tirar hematoma cerebral

Vice-presidente Amado Boudou, criticado por setores governistas e com baixa popularidade, assume interinamente o cargo

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

07 de outubro de 2013 | 22h19

BUENOS AIRES - Internada desde segunda-feira, 7, no Hospital Fundação Favaloro, em Buenos Aires, a presidente Cristina Kirchner será operada nessa terça-feira de manhã em razão de um hematoma na cabeça. Na cirurgia - que, segundo especialistas, deve durar entre uma hora e meia e duas horas - os médicos tentarão drenar o sangue acumulado entre membranas perto do cérebro da presidente, lesão causada por um traumatismo craniano ocorrido no dia 12 de agosto.

O vice-presidente da Argentina, Amado Boudou, assumiu ontem formalmente a chefia do governo. "Cristina terá um descanso que precisa e merece", disse Boudou - alvo de várias acusações de corrupção e investigado por enriquecimento ilícito - ao assumir a presidência em uma breve cerimônia na Casa Rosada. Sorridente, o vice sustentou que Cristina lhe pediu para "manter a gestão". Segundo ele, "não existem incertezas" sobre o futuro do governo argentino.

Cristina foi levada ao hospital no sábado ao meio-dia. Depois de oito horas de exames, teve alta com o diagnóstico um hematoma perto do cérebro. Foi enviada à residência presidencial de Olivos com a ordem de repouso absoluto durante um mês. Os médicos também detectaram uma arritmia cardíaca na presidente. No domingo à noite, Cristina teve novamente fortes dores de cabeça. Além disso, sentiu um formigamento no braço esquerdo, perdendo temporariamente força muscular. O agravamento dos sintomas antecipou a decisão pela cirurgia.

Na tarde de hoje, os médicos da Fundação Favaloro fizeram uma série de exames cardiovasculares pré-cirúrgicos. Na porta do hospital do bairro de Monserrat, reuniram-se militantes do grupo kirchnerista Tupac Amaru, com faixas exaltando Cristina. Eles prometiam manter uma vigília no local até os resultados da cirurgia de amanhã serem divulgados.

IMPOPULAR

De acordo com analistas, a saída de cena da presidente deu início a um período sem precedentes nos últimos dez anos, quando o casal Kirchner dominou a política argentina. Cristina não poderá exercer seu comando personalista e centralizador, afirmam.

Para complicar, Boudou - economista de formação ortodoxa, com fama de playboy - não possui força política própria. Além disso, o vice não tem a simpatia de grande parte do gabinete de ministros. Os sindicatos peronistas também desconfiam do presidente em exercício.

Os partidos de oposição desejaram ontem uma rápida recuperação à presidente, mas criticaram a posse de Boudou no comando transitório do governo, já que acusam o vice de protagonizar uma série de casos de corrupção.

Analistas do mercado financeiro não esperam mudanças na política econômica nos próximos tempos. Contudo, eles calculam que haverá mais incerteza, já que o governo deixará em compasso de espera uma série de decisões sobre os credores privados, além de medidas sobre controle da inflação e da política cambial.

O governo argentino está na reta final para as eleições parlamentares do dia 27, mas não existem expectativas de mudanças na campanha. Desde agosto, a presidente Cristina - com baixa aprovação popular - havia reduzido sua presença nos palanques. Também ficariam congeladas mudanças ministeriais previstas para depois das eleições.

No entanto, dentro do governo haverá uma reacomodação informal, com mais influência para Carlos Zanini, conselheiro jurídico do casal Kirchner desde que governavam a Província de Santa Cruz.

Máximo Kirchner, o filho de Cristina, que voou desde Rio Gallegos, na Patagônia, para Buenos Aires, no sábado à noite, também terá peso nas decisões do governo, embora não possua cargo formal.

IRONIA

Máximo é líder informal de La Cámpora, como é conhecida a juventude kirchnerista, organização que, nos últimos anos, espalhou seus integrantes em postos de comando em ministérios, secretarias e empresas estatais.

Ele tem excelente relação com Zanini, que é uma espécie de chefe "paralelo" do gabinete. Esse núcleo duro completa-se com Héctor Izcazuriaga, chefe do Serviço de Inteligência. Com ironia, no âmbito político em Buenos Aires, parlamentares e integrantes do governo resumem o novo formato de comando na Casa Rosada: "Boudou no governo, Zanini no poder".

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