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Cristina desiste de concorrer a outro cargo na Argentina

Analistas cogitavam que presidente tentaria um mandato para garantir imunidade; base kirchnerista muda discurso e agora elogia moderado Scioli

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2015 | 02h00

BUENOS AIRES - A presidente argentina, Cristina Kirchner, deixará o poder em 10 de dezembro sem disputar um novo cargo público, o que estava a seu alcance e poderia garantir proteção nas investigações judiciais que envolvem sua família. O prazo para inscrições de candidaturas argentinas se esgotou à meia-noite de ontem, sob forte expectativa e sem registro do nome da líder do país há oito anos. 

As hipóteses mais fortes eram de que ela disputasse um cargo como deputada pela Província de Buenos Aires ou integrante do Parlamento do Mercosul, o Parlasul. A ausência de Cristina indica como ela pretende conduzir o kirchnerismo, movimento representado na chapa presidencial governista por um de seus ideólogos, Carlos Zannini, escolhido para ser vice do governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, um peronista moderado.

Na Câmara, ela poderia liderar a aprovação de projetos de sua corrente política. Além disso, teria imunidade parlamentar. A Justiça investiga negócios de Cristina e seus filhos no caso Hotesur, hotel de luxo no sul do país em que há indício de lavagem de dinheiro - quartos foram ocupados por dois anos consecutivos só no papel.

"Tudo indica que o kirchnerismo conseguirá a ampla maioria de deputados e senadores. Isso bloquearia qualquer iniciativa para atingir a presidente", disse ao Estado o cientista político Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires. "Ela está segura de que a aliança com Scioli, da qual Zannini é o fiador, é suficiente para protegê-la", concluiu. De acordo com a consultora Mariel Fornoni, Cristina evitou essa opção também porque poderia obter menos votos que o próprio Scioli, o que comprometeria sua força para influenciar de fora da Casa Rosada.

Novo discurso. Os militantes do grupo La Campora, que reúne os jovens kirchneristas mais extremistas na defesa do movimento, trocaram radicalmente de opinião sobre Scioli. O preferido da base kirchnerista era o ministro dos Transportes, Florencio Randazzo, que abandonou a disputa após o aval de Cristina a uma chapa única.

Na noite de sexta-feira, 20 jovens se reuniam na sede da Campora no bairro de Barracas, no sul de Buenos Aires, região em que o kirchnerismo teve mais votos na última eleição (43%). "É uma decisão da líder do movimento, que não podemos discutir", disse Nicolás "Pinguino" Rangugni. O apelido do militante de 30 anos está relacionado à sua devoção por Néstor Kircher, que governou entre 2003 e 2007, morreu em 2010 e tinha a mesma alcunha. Rangugni tem o casal Kirchner abraçado tatuado na batata de sua perna esquerda. "Confesso que jurei não votar no Scioli, mas mudei de ideia. Ele estará com Zannini, que dá a tranquilidade."

Todos os militantes consultados começaram a comentar a escolha de Scioli com a mesma frase: "Foi uma decisão da líder desse projeto". "Queríamos o Randazzo e tínhamos desconfiança do Scioli, por vir dos anos 90, do menemismo", afirmou Ezequiel Vallejos, de 16 anos.

Até agora, Scioli era visto como representante da ala mais conservadora do peronismo e criticado por ter encontrado com executivos do Grupo Clarín, a quem o kirchnerismo tenta desmembrar com a Lei de Mídia.

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