AFP PHOTO / Telam / CARLOS BRIGO
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Cristina diz não temer prisão e mobiliza opositores contra Macri

Convocada a depor, ex-presidente argentina apresentou por escrito defesa sobre acusação de fraude financeira no Banco Central

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

13 Abril 2016 | 14h33

Em sua primeira convocação judicial a depor, a ex-presidente argentina Cristina Kirchner preferiu defender-se por escrito da acusação de fraude na venda de dólares pelo Banco Central no fim de seu mandato. Mas ela decidiu falar após sair do tribunal, num discurso de quase duas horas a uma multidão que foi apoiá-la – disse não ter medo de ser presa e indicou que pretende retomar o comando da oposição a seu sucessor, Mauricio Macri. 

 A Justiça investiga a cúpula kirchnerista pela negociação da moeda americana em contratos para entrega neste ano com um preço em média 42% abaixo da cotação internacional, que tinha como base o mercado paralelo. A manobra, que ajudou a diminuir a demanda pela divisa no fim da campanha eleitoral, deixou um prejuízo de R$ 18 bilhões, segundo o juiz que comanda o caso, Claudio Bonadío. 

Cristina referiu-se à denúncia em um parágrafo das quatro páginas de defesa. Alegou tratar-se de uma política de governo legal. O restante do documento foi dedicado a denunciar uma operação para prendê-la, sob o comando do atual presidente, com ajuda de meios de comunicação e do Judiciário.

No fim da manhã, ela subiu em palanque montado diante do tribunal criminal de Comodoro Py, na região portuária de Buenos Aires. “Podem me convocar 20 vezes, podem me colocar na prisão, mas não vão fazer que eu deixe de dizer o que penso, não vão me calar”, afirmou. 

A intimação foi interpretada pela militância como uma afronta. “Se convocam ela, convocam a todos”, era uma das frases mais repetidas. Cristina ironizou o pouco tempo no tribunal. Alegou que tinha tirado muitas fotos com fãs nos corredores.

No discurso, a ex-presidente rompeu meses de moderação ao convocar a oposição a se unir contra o que considerou “calamidades do governo Macri”. Seu sucessor autorizou uma série de aumentos nas tarifas de serviços públicos ao remover parte dos subsídios mantidos por ela. O conjunto de medidas simultâneas alimentou a inflação (35% nos últimos 12 meses) e começou a diminuir a popularidade dele, ainda alta – com aprovação de 50% a 60%.

A estratégia da oposição, segundo Cristina, deve ser perguntar ao cidadão comum se vive melhor ou pior que em 10 de dezembro. “Ela fez uma comparação simples e deu pauladas em todos, incluindo o peronismo dissidente. Propôs uma frente de oposição, que seria criada por outros e liderada por ela. Isso é o novo”, afirma o sociólogo Ricardo Rouvier.

O peronismo enfrenta disputas internas que permitiram a Macri aprovar projetos impopulares com votos de peronistas dissidentes e moderados. O partido elegerá seus novos líderes em maio. 

A investigação mais avançada que enfrenta Cristina envolve uma denúncia por lavagem de dinheiro. Ela precisará explicar sua ligação com o empreiteiro Lázaro Báez, que pagou a ocupação de hotéis da família Kirchner sem que eles tivessem sido frequentados. 

O delator Leonardo Fariña foi solto ontem e entrou para um programa de proteção de testemunhas. Ele detalhou a ligação de Báez, já preso, à ex-presidente em depoimento na sexta-feira. No dia seguinte, Cristina foi denunciada pelo Ministério Público

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