'Cristina é insegura e fraca, ao contrário do que tenta mostrar'

Para escritora, presidente argentina é, na verdade, uma mulher muito conservadora, dona de 1.500 rosários

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h04

Uma pessoa "muito insegura" que sofre com seu passado de "filha não reconhecida". Assim é definida a presidente Cristina Fernández de Kirchner na recém-lançada biografia Cristina Fernández, a verdadeira história, da jornalista Laura Di Marco. Em entrevista ao Estado, a autora diz que Cristina afirma a amigos que Néstor Kirchner "sacrificou sua vida pelos argentinos" (ele morreu em outubro de 2010 de um ataque cardíaco, após duas operações na carótida nos oito meses prévios) e ela própria está sacrificando sua saúde". Eis os principais trechos da entrevista.

Como era a relação de Néstor e Cristina Kirchner?

Néstor costumava encerrar as discussões com Cristina com a frase "não enche mais, Cristina, ou te envio de novo para Patagônia". E ele ainda gritava isso quando ela já era presidente, como se fosse a bronca de um pai na filha adolescente. Cristina até podia espernear, ameaçar com divórcio no meio de uma discussão. Mas era pura pirotecnia verbal. Os fatos mostram que ela manteve durante 35 anos uma dependência emocional de Néstor, que sobreviveu apesar das amantes e das negociatas que ela herdaria sem questionar.

Cristina passou da relação de confronto com o cardeal Jorge Bergoglio para uma relação afável quando se tornou papa...

Néstor considerava o cardeal Bergoglio o líder da oposição. Cristina não desejava o confronto com ele. Por isso, quando ele foi eleito papa Francisco, sem Néstor para impedir, Cristina aproximou-se do novo pontífice, embora vários setores do kirchnerismo, nas primeiras horas, seguindo o roteiro original de confronto com Bergoglio, criticaram a designação, alegando que ele havia sido cúmplice da ditadura, o que não era realidade. E esta guinada na posição em relação a Bergoglio quase dividiu o kirchnerismo. Mas prevaleceu o pragmatismo. O presidente Rafael Correa (do Equador) disse a Cristina que não dava para brigar com um papa do próprio país. O fato é que Cristina é uma mulher conservadora. Conto no livro que ela tem 1.500 rosários em seu quarto na residência de Olivos.

A figura feminina mais forte na política argentina até o surgimento de Cristina foi Eva Perón, que teve uma infância dura. Há semelhanças entre Evita e Cristina?

Cristina oculta que seu pai, Eduardo Fernández, não a reconheceu até que ela tivesse 6 anos. Em minhas investigações vi que Fernández não seria o pai biológico. Sua mãe, Ofélia Wilhelm, foi mãe solteira, algo que na época era uma vergonha social. Ela teria ficado grávida de um colega de trabalho bonitão, Florencio Lattaro, que não reconheceu o bebê. Este homem engravidou outra mulher pouco depois e teve uma filha com ela. Mas nesse caso ele se casou. Desta forma, Cristina teria uma meia-irmã, Emilce Lattaro, que a presidente nunca quis conhecer. Aliás, voltando a seu pai oficial, Fernández, ela sempre foi seca com ele. Cristina nunca o abraçava, ao contrário de sua irmã mais nova, Giselle, que sempre foi carinhosa com o pai. Quando ele morreu, no início dos anos 80, Cristina cortou relações com a família paterna. Pedi a certidão de nascimento de Cristina ao governador de Buenos Aires, Daniel Scioli, mas ele disse que não podia mostrá-la. Acho que esta tentativa de Cristina de ocultar seu passado indica que ela não é tão progressista como diz que é. Além disso, a presidente mente sobre sua origem social. Cristina afirmou durante anos que era de classe média. Mas na realidade passou seus primeiros anos em uma casinha alugada. Quando Eduardo Fernández vai morar com eles e constrói uma casa, aí é que ela ingressa na classe média. Mas ela nega esse passado de pobreza. Quando a austera Escola Pública Número 102 onde estudou, no distrito de Tolosa, ficou alagada no ano passado durante as enchentes, Cristina nada fez. Ela não quer vínculo com o passado. Hoje, Cristina, que na infância tinha bolsa de estudo do Colégio La Misericórdia, porque sua família não tinha dinheiro para a mensalidade, é mais rica que Barack Obama. A coisa que ela mais detesta é que a encarem como "brega" ou "cafona".

Cristina afirma que em sua juventude foi uma ativa militante peronista de esquerda...

A realidade é que Cristina não esteve presente nos principais eventos da militância peronista de sua geração em 1972, 1973 e 1974, entre eles a primeira volta de Perón ao país.

Os Kirchners argumentaram que foram presos na ditadura...

Em 1976, os Kirchners foram a Río Gallegos visitar a família. Jantaram com um amigo Cacho Vázquez. Na rua foram detidos pela polícia. Mas o objetivo das forças de segurança era Vázquez, que era um líder da Juventude Peronista na cidade. Os demais - Nestor, Cristina e a mulher de Vázquez - foram presos "para averiguação".

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