REUTERS|Enrique Marcarian
REUTERS|Enrique Marcarian

Cristina e Macri lutam até por lugar da posse

Presidente quer passar a faixa no Congresso, onde sucessor corre risco de ser vaiado; ele prefere a Casa Rosada, para passar imagem de estabilidade

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2015 | 21h22

O presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, quer receber na Casa Rosada a faixa presidencial. Cristina Kirchner, que sai após oito anos no poder, quer entregá-la no Congresso. Eles têm oito dias para resolver mais essa disputa em torno da transição.

A falta de consenso sobre uma cerimônia que em outros países obedece a um protocolo consolidado tem relação tanto com a instabilidade recente quanto com a futura disputa por poder na Argentina.

No Congresso, as galerias superiores são abertas ao público. Elas tendem a ser ocupadas por militantes kirchneristas, entre os quais os mais ruidosos são os do grupo La Cámpora, que há alguns dias organizam nas redes sociais uma despedida para sua líder. Macri gostaria de prestar juramento, discursar diante dos parlamentares e receber a faixa de Cristina no palácio presidencial. Dois quilômetros separam um prédio do outro pela Avenida de Maio.

Com o ápice do ato na Casa Rosada, diante de aplausos de funcionários e de chefes de Estado, Macri passaria ao mundo uma imagem de estabilidade e ainda teria o gosto de acompanhar Cristina até a saída.

Segundo o atual chefe de governo, Aníbal Fernández, a Constituição diz que toda a cerimônia, tanto o juramento quanto a passagem dos objetos, deve ocorrer no Parlamento. “Não se pode fazer como quer cada um. Dito com todo o respeito, a cerimônia não pode ser no Bairro Parque”, afirmou Fernández, numa ironia relacionada ao bairro sofisticado em que o futuro presidente vive. Na campanha, numa tentativa de criticar o berço de ouro do adversário, Daniel Scioli chamou-o de “convencido do Bairro Parque”. Macri é filho de um dos maiores empresários do país.

Se receber a faixa no Congresso, é provável que o futuro presidente seja vaiado pelo público que estará nas galerias. Do lado de fora, a tendência é que também o esperem militantes peronistas com tambores e canções de exaltação aos Kirchners. “Cristina vai querer fazer uma saída triunfal, com tudo o que tem direito”, diz o cientista político Ricardo Rouvier. Há preocupação por um encontro entre grupos rivais, o que não ocorreu na eleição.

A transferência de mando ocorreu na sede presidencial até 2003, quando Néstor Kirchner assumiu o poder e preferiu que tudo fosse no Parlamento. Desde a última ditadura (1976-1983), Raúl Alfonsín passou a faixa, em 1989, a Carlos Menem, que a repassou, em 1999, a Fernando de la Rúa, que rompeu a cadeia. Em 20 de dezembro de 2001, na mais grave crise institucional e econômica argentina, ele fugiu pelo teto da Casa Rosada de helicóptero.

Arestas. Desde a vitória de Macri sobre Scioli, no dia 22, por 678 mil votos (2,6% pontos porcentuais), predomina a tensão entre as partes. Cristina estendeu ontem, por decreto, a todas as províncias uma decisão da Corte Suprema que, na semana passada, livrou três delas de uma retenção de 15% de impostos pelo governo. Isso representa 125 bilhões de pesos (R$ 49,7 bilhões) a menos para seu sucessor.

Na segunda-feira, a presidente modificou, também por decreto, o orçamento de 2016, para acomodar uma ampliação do gasto público de 130 bilhões de pesos (R$ 52,9 bilhões) feita em seu último ano de mandato, no qual apareceu em 44 cadeias nacionais inaugurando obras, completas ou não.

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