Fabrizio Bensch/Reuters
Fabrizio Bensch/Reuters

Cristina fala em 'nacionalizar' a mídia

A presidente Cristina Kirchner propôs ontem a "nacionalização" dos meios de comunicação, que, na sua visão, não têm atendido aos "interesses nacionais". Sem deixar transparecer intenções mais claras, contudo, Cristina foi enfática ao ressaltar que não pretende "estatizar" a mídia.

Ariel Palacios CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2010 | 00h00

Segundo a presidente - que há dois anos alerta constantemente sobre um hipotético "golpe de estado" preparado pela mídia em conjunto com a oposição -, "seria importante nacionalizar os meios de comunicação para que eles tenham consciência nacional e defendam os interesses do país".

Ela criticou especificamente o fato de haver "tantos microfones e câmeras de TV sobre os problemas do crescimento econômico (de hoje)", enquanto os veículos da mídia "acobertaram, ignoraram e muitas vezes foram cúmplices da política de entrega e subordinação sem dizer uma só palavra ou tirar uma só foto".

"Às vezes penso que seria interessante nacionalizar; não estatizar. É melhor que isso fique claro para que amanhã ninguém dê uma manchete errada", destacou com o dedo em riste, sem explicar a sutileza.

Em várias outras ocasiões, Cristina acusara a mídia - especialmente os jornais Clarín e La Nación - de "cumplicidade com os interesses estrangeiros". Para ela, os jornais respaldam a suposta intenção do Fundo Monetário Internacional (FMI) de controlar a política econômica argentina.

No discurso de ontem, Cristina mostrou-se como vítima da mídia ao afirmar que continuará apostando "nos interesses da Argentina" e no "modelo virtuoso" de sua administração, apesar do que chamou de "ataques dos meios de comunicação".

A presidente é conhecida por aproveitar qualquer cerimônia ou comício para lançar críticas contra o jornalismo. Ontem, as declarações sobre "nacionalização" da mídia foram feitas durante a inauguração de uma fábrica têxtil na cidade de Mercedes, na Província de Buenos Aires.

Recentemente, durante a cerimônia de ampliação da produção de um laboratório na cidade de La Plata aproveitou a exibição de vacinas antirrábicas para ressaltar que "muitos jornalistas deveriam tomar esta vacina".

A relação de Cristina e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007), com a mídia sempre foi tensa. Nos últimos sete anos os Kirchners favoreceram grupos de mídia alinhados com o governo com publicidade oficial, pressionaram jornais críticos e aprovaram - em meio a denúncias de compra de votos - uma polêmica Lei de Mídia, que restringe a atuação dos canais de TV e redes de rádio.

Os conflitos se intensificaram a partir de 2008, quando Cristina afirmou que a mídia pretendia derrubá-la. No início deste ano, ela afirmou que era vítima de um "fuzilamento midiático".

Repúdio. A Associação de Entidades Jornalísticas da Argentina (Adepa) repudiou as "persistentes ofensas" contra jornalistas e meios de comunicação por parte de altos funcionários do governo de Cristina. Segundo a entidade, a presidente - desde que começou a usar o a rede de microblogs Twitter há um mês - "multiplicou as ironias e injúrias" contra empresas e profissionais de mídia. Segundo a Adepa, "a informalidade própria do Twitter não diminui a gravidade das mensagens que são transmitidas por intermédio dele".

A presidente costuma criticar também a Justiça Federal - que suspendeu várias medidas do governo, incluindo a maior parte da Lei de Mídia -, sugerindo que existem conexões irregulares entre juízes e jornalistas.

Crítica presidencial

CRISTINA KIRCHNER

PRESIDENTE ARGENTINA

"Seria importante nacionalizar os meios de comunicação para que adquiram consciência nacional e defendam os interesses do país"

"Às vezes, penso que seria interessante nacionalizar - não estatizar. É melhor que isso fique claro para que, amanhã, ninguém dê uma manchete errada"

CERCO À IMPRENSA

Assédio fiscal

Em setembro de 2009, dezenas de agentes do Fisco argentino invadem a sede do jornal ''Clarín'' e confiscam livros contábeis e outros documentos

Lei de Mídia

Congresso aprova lei que

restringe a atuação empresarial de grupos de mídia. Entre as medidas, a nova

lei impede

que empresa tenha de forma simultânea um canal de TV aberta e um canal de TV a cabo. O ''Clarín'' é o mais prejudicado pela medida

Fusão desfeita

Em dezembro, o governo anula uma resolução que baixara em 2007, pela qual

aprovava a fusão das operadoras de TV por assinatura Multicanal e Cablevisión, do Grupo Clarín

Caça à Fibertel

Governo cassou a licença de funcionamento da Fibertel, a principal provedora de internet do país, ligada ao Grupo Clarín. Serviços de internet representavam 64,9% do faturamento do grupo

Crime contra humanidade

Governo acusou diretores dos jornais "Clarín" e "La Nación" por crimes de lesa-humanidade na compra da Papel Prensa, única produtora de papel para jornal do país, durante a ditadura militar. Segundo o governo, proprietário vendeu a empresa após ter sido torturado. Parentes asseguram que a venda foi voluntária

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