Cristina faz críticas e piadas em rede nacional

Para os críticos, a presidente argentina - que conta até com claques onde transmite os discursos - abusa do direito que tem a horários de rádio e TV

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2012 | 03h04

A presidente argentina, Cristina Kirchner, fez 70 discursos públicos desde o início do ano. Desse total, 14 foram em rede nacional de rádio e TV - um deles, por 3 horas e meia. A líder já tocou nos mais variados assuntos: anunciou medidas econômicas, deu broncas em seus ministros e fez piadas de tom sexual, comentários com duplo sentido e ataques verbais a empresários e jornalistas, vários deles citados por nome e sobrenome.

A cada discurso, a presidente utiliza um tom mais informal, teatral e desinibido, que a socióloga Beatriz Sarlo qualifica de "stand-up cômico presidencial". "Cristina mudou significativamente sua oratória. Todos os observadores afirmam que ela está 'mais solta'. Eu diria que se mostra simplesmente engraçada", afirma Beatriz, autora de vários livros sobre o peronismo e o kirchnerismo.

Na opinião da socióloga, "no passado, Cristina era mais tecnocrática e falava com palavreado de relatório socioeconômico". Segundo Beatriz, "em sua nova oratória, a presidente fala como alguém que pensa que suas mais triviais 'sacadas' têm peso". "E, portanto, ela acha que devem ser divulgadas."

A Lei de Mídia, aprovada em 2009, determina que presidentes argentinos somente podem utilizar a rede nacional para situações "graves, excepcionais ou de transcendência institucional". No entanto, analistas políticos afirmam que mais da metade dos discursos de Cristina - cujas aparições do gênero tiveram em média uma audiência de 25% do público - não se enquadram nesses requisitos.

Como se apresentasse um talk show, quando está em rede nacional a presidente costuma se dirigir a uma claque que fica dentro de onde ela faz as transmissões - e pode ser composta por operários de uma fábrica, militantes de La Cámpora (juventude kirchnerista), deputados, governadores ou ministros. O aplauso da plateia é garantido a cada frase enfática ou piada de Cristina. Geralmente, presidentes fazem esses pronunciamentos sozinhos, em seus escritórios oficiais.

Este ano, a líder passou a fazer mímicas durante seus discursos - como em Angola, em maio, onde ela simulou ordenhar uma vaca e agitou os cotovelos imitando uma galinha.

Há duas semanas, Cristina afirmou em rede nacional de TV que utiliza esse recurso porque considera que os assuntos sobre os quais fala não são transmitidos normalmente. No entanto, os discursos da presidente costumam ser divulgados, total ou parcialmente, por todos os canais.

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