Cristina Kirchner aperta cerco e tenta atingir finanças do Grupo Clarín

Queda de braço. Maior holding do jornalismo argentino paga caro por adotar uma posição crítica ao governo do país, que aprovou no Congresso uma draconiana Lei de Mídia que rebaixou o preço de suas ações e pode acabar inviabilizando os negócios da empresa

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2010 | 00h00

Assediado pelas medidas do governo argentino, o Grupo Clarín, maior holding de mídia do país, viu o valor de suas ações reduzir-se drasticamente nos últimos anos. Em 2007, após a eleição de Cristina Kirchner, as ações chegaram a valer 32,10 pesos. Dois anos depois, em 2009, quando o jornal Clarín adotou uma posição mais crítica em relação a Cristina, a cotação despencou para 5,55 pesos por ação. Hoje, oscila em torno dos 12 pesos por ação.

Uma draconiana Lei de Mídia - aprovada pelo Congresso em outubro, mas ainda suspensa por força de liminares judiciais - foi impulsionada pelo governo e converteu-se na principal ferramenta para tentar inviabilizar o Grupo Clarín como negócio.

Em razão da norma, a holding terá de se desfazer de grande parte de suas empresas, que incluem de emissoras e repetidoras de rádio e TV em todo país a operadoras nacionais de TV a cabo, além dos jornais diários Clarín e Olé. A controvertida lei, porém, é apenas a parte mais visível da série de ações de intimidação e perseguição governamental contra o jornal Clarín, seus proprietários e os jornalistas que nele trabalham.

Ricardo Roa, editor-adjunto do Clarín disse que o jornal tem sofrido com o custo econômico da ofensiva do governo. "Mas transmitimos a nossos jornalistas que a diretriz é a de manter a linha editorial, apesar do enorme custo que isso implica ante um governo que ignora a necessidade de existência da imprensa independente", disse ao Estado.

O jornalista acredita que, ainda que a Lei de Mídia tire do Clarín alguns de seus veículos, a força da voz crítica do grupo não se reduzirá. "Vamos agir mais na internet. Esse é um grupo de mídia. Sempre foi assim, e assim continuaremos."

Desde que Cristina e o marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, declararam guerra ao jornal, grupos ligados ao peronismo têm promovido a exibição de outdoors com fotos de colunistas do Clarín, tachando-os de "traidores" e "golpistas". O acesso de repórteres do jornal a dados oficiais restringiu-se na mesma medida em que o rigor fiscal contra o grupo se intensificou.

Na sequência, o sindicato dos caminhoneiros, aliado do governo, chegou a impedir por várias noites, por meio de piquetes, a saída dos caminhões com exemplares do jornal da gráfica. Desde o fim da ditadura (1976 a 1983) um meio de comunicação não era alvo de pressões tão violentas.

O marco inicial da perseguição ao Clarín foi a posição de apoio às organizações de produtores rurais que, em 2008, promoveram piquetes e bloqueios de estradas em protesto a um projeto de lei do governo que aumentava os impostos sobre a produção agrícola.

Além disso, o governo tenta levar a presidente do grupo, Ernestina Herrera de Noble, de 85 anos, à prisão levantando a suspeita de que seus filhos adotivos tenham sido sequestrados de desaparecidos da ditadura.

Julio Bárbaro, ex-diretor do Comitê Federal de Radiodifusão (organismo que regula a mídia) estima que as ações do governo têm sido eficazes no objetivo de debilitar a saúde financeira da holding. "O Grupo Clarín tinha um valor de mercado estimado em US$ 4,7 bilhões há quatro anos (antes dos choques com o governo). Hoje, vale pouco mais de US$ 1 bilhão."

Fontes do Grupo Clarín indicaram, sob a condição de anonimato, que os diretores da holding tentaram negociar com os Kirchners alternativas para reduzir o conflito. "Mas os Kirchners exigiram dos editores do Clarín um grau tão grande de submissão que o grupo decidiu abandonar o diálogo", disse a fonte.

O ódio do governo de Cristina contra o Clarín deriva, segundo analistas de uma paranoia dos Kirchners. Para o casal, a holding está por trás de um plano para dar um golpe de Estado em conjunto com os produtores agropecuários e os partidos da oposição. Néstor Kirchner definiu a campanha para a aprovação da Lei de Mídia como "a mãe de todas as batalhas", numa indicação clara de que considera a redução do poder da empresa fundamental para a sobrevivência do grupo político liderado por ele e Cristina.

Guardadas as proporções, ressaltam os opositores, o casal Kirchner - que sempre manteve uma relação conturbada com a imprensa - optou por trilhar o caminho do venezuelano Hugo Chávez, de calar as críticas por meio de ações de força contra a mídia, sob a alegação de que ela seria parte de uma conspiração contra o governo.

A Lei de Mídia ganhou impulso depois do fracasso de uma série de esforços do governo e de seus partidários para intimidar o Clarín - um movimento que incluía a tentativa de flagrar alguma irregularidade nos livros fiscais do Grupo Clarín. Após a blitz da Afip (a Receita Federal argentina), na qual mais de 200 fiscais invadiram a sede do Clarín em Buenos Aires e praticamente sequestraram os livros contábeis, nada de ilegal foi apurado. Até hoje, no entanto, o governo nunca deu nenhuma informação oficial sobre o resultado de sua fiscalização nem apresentou nenhuma justificativa para a ação do fisco.

Em outra frente contra o Clarín - e os demais jornais do país -, os Kirchners tentam tomar o controle da Papel Prensa, a maior produtora de papel para jornal da Argentina. Desde 1976, a empresa é controlada pelo Grupo Clarín (49% das ações), o jornal La Nación (22,49%) e o Estado argentino (27,46%). Em sua maior parte, por questão de custo, os jornais têm optado por utilizar papel importado. Mas, para muitas organizações de defesa da liberdade de expressão, o assalto à Papel Prensa poderia ser o passo prévio de uma ação do Estado para intervir nas operações de importação do produto.

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