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Cristina Kirchner diz que anulação de eleição pela Justiça após fraude discrimina pobres

Segundo a presidente argentina, a decisão de juízes de Tucumán é antidemocrática

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE, BUENOS AIRES, O Estado de S. Paulo

18 Setembro 2015 | 20h51

A presidente argentina,  Cristina Kirchner, considerou antidemocrática a anulação, pela Justiça da Província de Tucumán, da eleição regional do dia 23, em que foram registradas troca de votos por comida, queima de urnas e repressão a opositores que contestaram o resultado.

O candidato kirchnerista Juan Manzur venceu por 11 pontos porcentuais o opositor José Cano na disputa pelo governo. 

“Dois juízes decidem anular a vontade de centenas de milhares dizendo que alguns não podem ou não sabem votar porque são pobres. Acho que estamos voltando a épocas pré-democráticas", afirmou Cristina.

Ela se referia às denúncias de fraude que levaram a Justiça local a determinar, em primeira instância, a repetição da votação. O kirchnerismo local recorreu ao tribunal regional para reverter a decisão e divulgou um plano de destituir a dupla de magistrados que deu a sentença, a quem Cristina qualificou de "juízes amigos" da oposição. 

"Dizem que o sistema eleitoral tem uma vulnerabilidade porque os eleitores dependem dos políticos. Ora, quer dizer que os pobres são idiotas?", questionou Cristina. "Está bem que as pessoas votem pelos próprios interesses. Que ninguém os acuse de ser pobres, dizendo que por isso podem ser comprados. Ao contrário, muitas vezes os de mais cima se vendem por quatro moedas."

A Corte Suprema do país informou, em comunicado, que não se manifestará sem que o caso passe primeiro pelo tribunal regional de Tucumán, a menor província da Argentina. Três dos cinco juízes desta corte foram nomeados pelo atual governador, o kirchnerista José Alperovich, o que torna improvável a confirmação da primeira decisão inicial. 

"Começo a me preocupar pelo que pode ocorrer se ganharem os que pensam que se te criticam na televisão é preciso fechar um canal ou se perder uma eleição é razão para denunciar fraude", acrescentou Cristina. A presidente se referia ao fechamento por algumas horas do estacionamento de um canal governista em Buenos Aires, o C5N, do grupo Indalo, ocorrido na noite de quinta-feira.

Pertencente ao empresário Cristóbal López, ligado ao governo federal, o meio de comunicação divulgou uma nota em que acusava de censura a prefeitura, governada pelo conservador Mauricio Macri, principal candidato opositor à presidência. A direção do grupo alegou que os veículos de reportagem não podiam sair do prédio em razão do bloqueio e tirou o sinal do ar. A prefeitura, então, recuou na interdição. 

"São esses que nos acusam de autoritários? Até de ditadora me chamaram na TV, mas nenhum jornalista se atreveu a chamar (Jorge Rafael) Videla de ditador ou assassino", afirmou Cristina, durante a inauguração de um hospital. O C5N havia manifestado em nota que a interdição fora antecedida pelo corte de verbas para publicidade.

"Primeiro foi a mordaça econômica. Há dois meses o governo da cidade de Buenos Aires cortou toda a verba publicitária do canal em uma clara mensagem de censura econômica."

O governo municipal negou a redução de verbas de publicidade e citou campanhas públicas veiculadas no canal. Também disse ter notificado o C5N para que regularizasse equipamentos de segurança no local. Cristina qualificou o caso como ataque à liberdade de imprensa.

Seu governo é acusado de atacar esse princípio com a Lei de Mídia, idealizada pelo kirchnerismo para desmembrar o Grupo Clarín, maior empresa de comunicação da Argentina. O governo também é criticado por favorecer com distribuição de verba pública jornais alinhados, como o Página 12.

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