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Cristina Kirchner é denunciada por encobrir ação de iranianos no caso Amia

Segundo promotor, presidente argentina negociou plano de impunidade e encobrimento de iranianos acusados de ataque

Ariel Palacios, correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

14 de janeiro de 2015 | 15h31

BUENOS AIRES - O promotor federal Alberto Nisman denunciou nesta quarta-feira, 14, a presidente argentina, Cristina Kirchner, e o chanceler Héctor Timerman por "negociar um plano de impunidade e encobrimento dos fugitivos iranianos acusados" do ataque terrorista contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) no dia 18 de julho de 1994.

Nisman, encarregado do caso AMIA, solicitou o inquérito da presidente e do chanceler e um embargo de US$ 23 milhões sobre os integrantes do governo Kirchner denunciados.


Segundo o promotor, em troca da operação de impunidade, a Casa Rosada - por motivos puramente econômicos - obteria acordos comerciais com o Irã, especialmente para a exportação de carne e oleaginosas argentinas. Em troca, a Argentina - que sofre com a crise energética desde 2004 - receberia petróleo iraniano.

O promotor argumenta que a cúpula do governo Kirchner negociou com Teerã "um sofisticado plano" para encobrir os participantes do atentado realizado em Buenos Aires há 21 anos. Na ocasião, um carro-bomba explodiu na frente da sede da instituição judaica, matando 85 pessoas e ferindo outras 300.

O secretário-geral da presidência da República, Aníbal Fernández, afirmou que o pedido de inquérito à presidente Cristina é "algo ridículo".

Denúncia. O foco da denúncia de Nisman são as negociações realizadas secretamente durante seis meses em 2012 entre a Casa Rosada e o governo iraniano para criar uma "comissão da verdade" conjunta para investigar o atentado. O governo argentino admitiu a existência das negociações em janeiro de 2013 e um mês depois, Cristina conseguiu aprovar o acordo graças à maioria que possui no Congresso Nacional.

Apesar da ratificação do acordo pelo lado argentino, o Parlamento em Teerã nunca aprovou o pacto, já que a Justiça em Buenos Aires não solicitou à Interpol a suspensão do pedido de captura dos iranianos acusados de participar do ataque.

No ano passado, como as "investigações conjuntas" não ocorreram, partidos opositores argentinos e a comunidade judaica argentina - a segunda maior do continente, após os EUA - criticaram o acordo com Teerã.

Nisman afirma que tem gravações de conversas telefônicas que provam sua denúncia e acusa o deputado Andrés Larroque (líder de "La Cámpora", denominação da juventude kirchnerista) e outros aliados do governo de participarem dessas negociações a modo de "diplomacia clandestina".

O diplomata iraniano Moshen Rabbani, um dos acusados pela Justiça argentina de ter organizado o atentado contra a AMIA, também teria participado das negociações.

Acusados. A oposição e os líderes da comunidade judaica acusam o governo Kirchner de ignorar as decisões da Justiça em Buenos Aires, que condenou à revelia um grupo de iranianos que em 1994 ocupavam altos postos no governo da época.

Além do próprio presidente Ali Akbar Rafsanjani, a Justiça argentina considera responsáveis pelo ataque o ex-chanceler Ali Akbar Velayati, o ex-ministro de Inteligência Ali Fallahijan, o ex-chefe da Guarda Revolucionária Mohsen Rezai, o ex-chefe da Força Quds e ex-ministro da Defesa, Ahmad Vahidi, o ex-adido cultural da embaixada do Irã em Buenos Aires Mohsen Rabbani, o terceiro secretário da embaixada, Ahmad Reza Asghari e o ex-embaixador iraniano na Argentina Hadi Soleimanpour.

Em 2007 a Justiça argentina pediu à Interpol a captura do grupo. No entanto, todos permanecem livres porque Teerã se recusa a entregá-los.

Segundo a Justiça argentina, o ataque foi organizado em Teerã em conjunto com o Hezbollah e uma conexão argentina. No ano passado a Câmara Federal Número 1 de Justiça em Buenos Aires declarou a "inconstitucionalidade" do pacto de 2013 com o Irã.

Alvo. Nos anos 1990, a Argentina era considerada um alvo fácil para um ataque terrorista, em razão da pouca vigilância de suas fronteiras. Além disso, era um alvo interessante para o terrorismo fundamentalista, já que possui a maior comunidade judaica da América Latina, estimada entre 250 mil e 500 mil pessoas.

Em 1992, dois anos antes do atentado contra a AMIA, um carro-bomba explodiu em frente à sede da Embaixada de Israel em Buenos Aires. O ataque matou 29 pessoas e feriu outras 250, sendo que várias estavam na escola primária e no asilo de idosos na calçada da frente.

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