Cristina Kirchner ficará um mês de licença médica

Traumatismo ocorrido um dia após a pior derrota do kirchnerismo em uma década, nas primárias de 12 de agosto, é a causa de um hematoma; repouso tira presidente da campanha na votação que definirá novo Congresso

Ariel Palacios, Agência Estado

06 de outubro de 2013 | 08h21

A presidente argentina, Cristina Kirchner, deve ficar um mês de repouso por ordem médica em razão de um hematoma no cérebro, diagnosticado na noite de sábado, 5, em Buenos Aires. O afastamento – não está claro se ela vai deixar oficialmente o cargo neste período ou só limitará sua atuação – ocorre a três semanas de eleições legislativas cruciais para o futuro do kirchnerismo.

O anúncio oficial foi feito pelo porta-voz da presidência da República, Alfredo Scoccimarro. Ele declarou que Cristina padece de arritmia no coração e tem uma "coleção subdural crônica", isto é, um hematoma abaixo da membrana do cérebro.

Os médicos ordenaram à presidente que não faça "esforços intelectuais" durante este período de repouso, embora o governo Kirchner esteja na reta final da campanha para as eleições parlamentares. No dia 27, a renovação do Parlamento definirá se Cristina terá deputados suficientes para mudar a Constituição e disputar uma nova reeleição. Essa hipótese ficou remota após a derrota nas primárias de agosto, razão pela qual era esperada a participação dela na reta final da campanha. As pesquisas indicam que o governo sofreria uma reedição da derrota da primária, quando obteve 26% dos votos. A oposição, embora fragmentada, reuniu 74%.

O governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli, um kirchnerista "light" que desponta como presidenciável do governo à sucessão de Cristina, manifestou no domingo, 6, sua "preocupação" pela saúde da presidente. "Não deve ser exposta a risco algum", disse Scioli.

O governo não deixou claro se a presidente – cujo governo foi sempre marcado pelo personalismo e a centralização das decisões – ficará totalmente ausente das decisões políticas durante a licença, ou manterá reuniões com seus ministros, como fez quando foi operada da tireoide no início do ano passado. Tudo indicava que o cargo seria ocupado temporariamente pelo vice-presidente, Amado Boudou, que voltou no sábado às pressas do Brasil, onde esteve reunido com os senadores Renan Calheiros e José Sarney (mais informações na página A9).

Um deputado kirchnerista sustentou ao Estado que a ausência de Cristina neste trecho final de campanha eleitoral não altera o cenário existente: "Ela já não estava participando ativamente da campanha desde as eleições primárias. Os governadores já haviam assumido no último mês os comícios em suas respectivas províncias", minimizou.

O parlamentar – com a pragmática sinceridade peronista – admitiu ter interesse em saber se a doença da presidente "poderia originar um efeito de ‘compaixão’, tal como ocorreu quando ficou viúva, na morte do (ex-presidente Néstor) Kirchner". Na véspera da viuvez, Cristina tinha 34% de aprovação popular. Graças ao denominado "efeito viúva", subiu para 60% em apenas um mês, após a morte de Kirchner.

Cristina também desfrutou de um crescimento da popularidade quando foi operada da tireoide em janeiro do ano passado. Na ocasião, o governo havia anunciado que ela tinha um tumor cancerígeno, o que ocasionou uma onda de simpatia pela presidente, reeleita poucos meses antes, em outubro de 2011.

Dias após a cirurgia o governo admitiu que Cristina não tinha câncer. Este caso ficou conhecido ironicamente como o "não câncer" de Cristina, cuja popularidade, que estava em 60% de aprovação, começou a cair de forma persistente a partir dessa época até chegar aos atuais 30%.

Traumatismo. O porta-voz da Casa Rosada admitiu que Cristina sofreu um "traumatismo de crânio" no dia 12 de agosto, isto é, um dia após a pior derrota eleitoral do governo Kirchner em uma década. Scoccimarro não explicou em que circunstâncias ocorreu o traumatismo, já que um dia e meio depois ela participava de um comício em uma exposição de tecnologia argentina.

O governo tampouco informou se a presidente precisaria se submeter a uma cirurgia no crânio, tal como indicaram diversos especialistas médicos, na hipótese em que o hematoma não se dissolva naturalmente.

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