Cristina Kirchner já busca soluções para a herança pesada do marido

Favorita para suceder ao presidente argentino, primeira-dama terá de atrair capital externo e domar inflação

Ariel Palacios, BUENOS AIRES, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2012 | 00h00

Se as pesquisas estiverem certas e a intuição dos analistas políticos for aguçada, a primeira-dama e senadora Cristina Kirchner, vencerá no dia 28 de outubro as eleições presidenciais. A partir dali, começará uma peculiar - e inédita no mundo - transição política de marido para mulher, que culminará em 10 de dezembro, quando Néstor Kirchner passará a faixa e o bastão presidencial à Cristina. Ela deixará de ser a primeira-dama. E ele se transformará, como costuma dizer brincando, no ''''primeiro-cavalheiro''''.No entanto, nem tudo serão flores. Cristina herdará do marido - seu atual cabo eleitoral - uma pesada herança política e econômica.Analistas consultados pelo Estado afirmam que Cristina já está preparando a solução para alguns dos problemas que Kirchner não conseguiu resolver em quatro anos de governo. Outras questões, no entanto, possivelmente terão a mesma estratégia aplicada com intensidade por Kirchner, ou seja, ''''bicicletear'''' - gíria portenha para ''''empurrar com a barriga''''.Kirchner demonstrou habilidade para improvisar no meio de crises. Chegou ao poder com apenas 22% dos votos; padecia da imagem de que seria um mero títere nas mãos de seu antecessor, o ex-presidente Eduardo Duhalde; precisava lidar com o monumental calote da dívida externa. Além disso, o país ostentava níveis recorde de pobreza e desemprego. Em pouco mais de quatro anos, tornou-se o presidente civil mais poderoso da história argentina, dominando o Parlamento, os governos provinciais e a Justiça. Reduziu o desemprego a um dígito, diminuiu a pobreza à metade e conseguiu negociar a reestruturação da dívida externa - empurrando bilionários pagamentos para o fim da próxima década. Na falta de investidores europeus e americanos, atraiu os brasileiros, mexicanos e chilenos.Resta saber se o time que Cristina convocará para seu gabinete terá a mesma capacidade para driblar problemas.Desde que pôs na rua sua campanha, Cristina dedica-se a seduzir o capital. Ao contrário do que fez o marido, tenta convencer os mercados que seu eventual futuro governo primará pela previsibilidade e o tratamento afável ao empresariado. Para isso, nos últimos dias, passou pela sabatina da nata empresarial espanhola em Madri e dos CEOs das multinacionais americanas em Buenos Aires, além de reunir-se com os diretores mundiais de duas grandes indústrias automobilísticas.Na última semana, o casal - especialmente Cristina - reforçou sua estratégia de mostrar uma imagem mais ''''light'''' aos mercados ao iniciar um gradual afastamento do presidente venezuelano, Hugo Chávez, na esfera política. No entanto, continuam os fortes laços econômicos a ''''Revolução Bolivariana''''.AMOR E FATOS''''Um amigo meu costuma dizer que não acredita mais nas palavras de amor... só acredita nos fatos'''', comenta ao Estado, com ironia, o ex-secretário de Indústria Dante Sica, atual diretor da consultoria Abeceb. ''''O mesmo ocorre com os investidores. Eles vão acreditar quando o governo tomar medidas concretas.''''Sica considera que o principal problema interno de Cristina será o combate à inflação. ''''Não é somente pelos efeitos na economia real, mas também porque é o assunto mais visível pela população. Um problema que precisará resolver em curto prazo'''', diz.Segundo Sica, a crise energética - que afeta o país desde 2004, mas se agravou neste ano - é outro assunto espinhoso a tratar em curto e médio prazo: ''''Há problemas de abastecimento de diesel e gás. Na área de energia elétrica há avanços. As obras para ampliar a capacidade e distribuição se atrasaram, mas estão em andamento. Os sufocos que tivemos neste ano devem atenuar-se.''''Desde maio, o governo do futuro ''''primeiro-cavalheiro'''' enfrenta o mais rigoroso racionamento de energia dos últimos 18 anos, que provocou um ''''apagão'''' industrial. ''''Cristina terá de negociar os contratos com empresas de gás, cujas concessões vencem em 2017. Essas empresas só investirão no país se souberem que possuem garantias para além desse ano. E isso implicará numa revisão tarifária'''', afirma. As tarifas estão congeladas desde janeiro de 2002, fato que - segundo as empresas - desestimula os investimentos no setor.Os analistas afirmam que Cristina exibirá um gabinete renovado, eliminando as figuras envolvidas nos recentes casos de corrupção que abalaram o cenário argentino. A remoção de vários funcionários envolvidos nos escândalos já começou, de forma a ''''asfaltar'''' o caminho para Cristina. No entanto, ela terá de lidar com os processos na Justiça contra os funcionários de seu marido, iniciados nos últimos meses - que devem avançar ao longo do ano que vem.Os analistas também sustentam que Cristina terá que continuar com o ''''expurgo'''' de políticos não-alinhados a seu governo iniciado por Kirchner. Mas, nessa tarefa, terá a especial ajuda do marido, que se encarregará de preparar um novo superpartido, que aglutinará setores de diversos partidos. Com essa nova força política, o casal pretende enfrentar a oposição - que depois de quatro anos de desprestígio começa a se fortalecer. O expoente desse fenômeno opositor é o prefeito eleito de Buenos Aires, Mauricio Macri, da coalizão de centro-direita Proposta Republicana (PRO), potencial candidato à presidência em 2011. Macri promete ser o pesadelo dos Kirchners nos próximos quatro anos.O plano do casal é continuar no poder outros quatro anos mais. Ou seja, além do próximo mandato sob uma eventual administração ''''cristinista'''', conseguir o período 2011-2015. Neste caso, poderia ser a reeleição de Cristina ou o retorno de Kirchner. O futuro político do casal, porém, vai depender da maneira como Cristina administrar a herança deixada pelo governo do marido.

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