Rodrigo Cavalheiro/Estadão
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Cristina Kirchner leva Lula a inauguração ao lado de candidato

Daniel Scioli, escolhido pela presidente argentina para disputar sua sucessão em outubro, participou de abertura de posto médico

Rodrigo Cavalheiro, correspondente, O Estado de S.Paulo

10 Setembro 2015 | 02h01

Enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva agradecia na quarta-feira em um comício ao kirchnerista Daniel Scioli por ter batizado com seu nome uma unidade hospitalar na região metropolitana de Buenos Aires, os quatro primeiros pacientes eram atendidos no prédio atrás do palco. Eles encontraram equipamentos de média complexidade novos e uma diretora preocupada por ter 10 médicos quando o ideal seriam 24.

"O sistema não desperta o interesse. Um médico ganha 12 mil pesos (R$ 4.860) por 36 horas de trabalho", afirmou ao Estado Eleonora Rossi, diretora do Hospital Mercante, ao qual a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Lula da Silva está vinculada. A UPA fica em José C. Paz, município de 263 mil habitantes, com forte histórico kirchnerista e um dos mais pobres da Província de Buenos Aires, governada há oito anos por Scioli.

Em um discurso prévio ao de Cristina, Lula disse que no Brasil já foram feitas 444 unidades e o país pretende chegar às 918. "É uma coisa extraordinária. Você não espera que os pobres se dirijam ao hospital. O hospital vem até onde estão as pessoas pobres, que precisam da saúde." Ele disse esperar que "o projeto que mudou a história da Argentina", referindo-se aos quatro anos de governo de Néstor Kirchner, morto em 2010, e aos oito de Cristina, continue com Scioli.

Quando Cristina encerrou o ato, às 13 horas, a coordenadora das UPAs da região, Lourdes Barnada, explicava a três moradoras que entraram para conhecer o ambulatório que havia uma falta de pediatras, mas médicos clínicos gerais fariam a triagem das crianças se necessário. A UPA tem mil metros quadrados e está equipada com ecografia, raio X, farmácia e consultórios. Em média, elas atendem mil pacientes por mês e não estão projetadas para internações.

Em seu discurso, Lula citou presidentes com os quais compartilhou o cargo na América do Sul e destacou a união do grupo para criar alguns organismos diplomáticos internacionais e vetar a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), liderada pelos EUA. "Foi junto com Néstor (Kirchner), foi junto com Cristina, foi junto com (Hugo) Chávez, foi junto com Evo Morales, foi junto com Daniel Correa (Lula errou o nome do presidente equatoriano, Rafael Correa) que nós enterramos a Alca aqui em Mar del Plata e fortalecemos o Mercosul. Foi junto com Kirchner, com Cristina e com tantos outros que nós criamos a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac)", afirmou.

Cristina tomou o microfone saudando a chuva e chamando Lula de presidente. "Quando alguém governou como governou Lula, nunca deixa de ser presidente", justificou. Seu alvo principal foram os países europeus, em razão da crise migratória no continente. "Que ninguém nos venha com o exemplo de alguns países do norte. Eu não quero me parecer a países que deixam morrer meninos nas praias. Isso não é de cristãos, é decadência cultural. Atiram imigrantes de um país ao outro como se fossem coisas."

Lula exaltou o período kirchnerista, referindo-se a ele como uma fase em que os dois países compreenderam pela primeira vez que são inseparáveis e precisam um do outro. "A única coisa que nos divide hoje é se Maradona é melhor do que Pelé. Ou se Messi é melhor do que Neymar", disse, provocando risos.

Lula foi convidado a fazer campanha por Scioli em abril, quando o peronista moderado, candidato do governo Cristina à presidência, visitou São Paulo. Scioli já havia levado para a Província de Buenos Aires, que tem 37% dos eleitores do país, o modelo idealizado no Rio para descentralizar o atendimento de saúde.

Ambos jantaram massa e carne na casa de Scioli num condomínio de luxo na noite de terça-feira, logo depois de Lula chegar à capital argentina, proveniente de Assunção. O ex-presidente deixou o Hotel Alvear Palace, onde está hospedado com sua comitiva, às 20 horas. Retornou no início da madrugada de ontem, entrando pela garagem. O sexto andar do edifício, o 5 estrelas mais tradicional da cidade, foi isolado pela segurança.

Segundo o Instituto Lula, a escolha do hotel foi feita pela Fundação DAR, que elabora o plano de governo de Scioli e conta com colaboração de empresários kirchneristas. A fundação paga pela palestra que o ex-presidente dará amanhã a empresários em Buenos Aires. Lula ainda receberá dois títulos de Doutor Honoris Causa e falará a organizações civis.

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