Cristina: ''''Não sou Hillary nem Evita''''

Em rara entrevista, candidata à presidência argentina rejeita comparações e diz que inflação é mais do que razoável

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

25 de outubro de 2007 | 00h00

Buenos Aires - "Não quero que me identifiquem nem com Hillary Clinton nem com Evita Perón nem com ninguém!" Dessa forma, a primeira-dama Cristina Fernández de Kirchner - candidata do governo de seu marido, o presidente Néstor Kirchner, à presidência argentina - enfatizou que não aprecia as comparações com outras mulheres da política. "Com Hillary temos algumas coincidências, pois ambas somos ou fomos advogadas, senadoras e esposas de presidente. Mas não se deve imitar ninguém." As declarações foram feitas terça-feira à Rádio La Red e divulgadas ontem.A primeira-dama é conhecida por sua profunda aversão à imprensa. Por isso, a entrevista chamou a atenção. Desde que seu marido tomou posse, em 2003, ela não dava entrevistas à imprensa argentina. Apesar de ser candidata às eleições presidenciais de domingo, Cristina rejeitou a possibilidade de participar de um debate com adversários. O casal Kirchner tem uma relação ríspida com os jornalistas. Ambos recusam-se a dar entrevistas coletivas. Kirchner, em diversas ocasiões, criticou jornalistas - citando nomes - durante discursos na Casa Rosada, acusando-os de conspirar contra o governo. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) criticou nos últimos anos as pressões do governo Kirchner sobre as empresas de comunicação e os jornalistas. A entrevista da primeira-dama à Rádio La Red foi imediatamente criticada por outros setores da mídia, já que a entrevistadora foi a jornalista Mónica Gutiérrez - que, além de ser declarada admiradora de Cristina, gaba-se de ser parecida fisicamente com ela.Kirchner, em seus quatro anos e meio de mandato, só deu entrevistas a alguns jornais considerados alinhados com o governo. Diversas ONGs destacam que os jornais que não criticam o presidente recebem uma substancial publicidade oficial. Ontem à noite Cristina também falaria em A Dos Voces, o mais prestigiado programa sobre política da TV argentina. Na entrevista à rádio, Cristina disse que a inflação é "mais do que razoável" se for levada em conta a expansão da economia nos últimos anos. "Em cinco anos o PIB cresceu 49,3%, algo inédito nos últimos 100 anos." A candidata defendeu o índice de inflação do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), organismo sob intervenção do governo. Pelos dados do Indec, a inflação acumulada de janeiro a setembro é de 5,8%. Mas, segundo opositores e economistas independentes, esse índice está sendo manipulado desde janeiro. Eles afirmam que a inflação real é o triplo da oficial. Cristina afirmou que seu eventual governo não adotará "políticas monetaristas" para combater a inflação.ECONOMIA KIRCHNERISTA5,8% é o índice oficial da inflação acumulada de janeiro a setembro deste ano, calculada pelo instituto de estatística dogoverno argentino19% é a inflação estimada no mesmo período por alguns economistas independentes, que acusam o governo Kirchner demascarar o índice real de aumento de preços49,3% foi o crescimento acumulado do PIB argentino nos últimos 5 anos

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