Fabrizio Bensch/REUTERS
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Cristina passa a canal pró-governo 67,5% da verba de propaganda oficial

Favorecimento. Oposição pede à Justiça que investigue distribuição da publicidade estatal, que deu ao Canal Nove quase US$ 18 milhões do orçamento total de US$ 26 milhões em 2010; emissora líder de audiência, do Grupo Clarín, recebeu apenas US$ 1,3 milhão

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

A Coalizão Cívica, um dos principais partidos de oposição, pediu ontem à Justiça Federal argentina que investigue irregularidades na distribuição da publicidade oficial - um total de US$ 26 milhões -, considerada arbitrária pelos parlamentares que apresentaram o pedido. O foco da investigação pedida pela oposição é o Canal Nove, que recebeu 67,5% do total das verbas de publicidade oficial para TV aberta do governo da presidente Cristina Kirchner em 2010.

Segundo a deputada Patrícia Bullrich, o Departamento Anticorrupção deverá investigar a "evidente e ampla discriminação na utilização dos recursos públicos em favor de um meio de comunicação que contém em sua programação diária emissões propagandísticas destinadas a apoiar diretamente o governo".

Na contramão da publicidade oficial destinada o Canal Nove, o Canal Trece - primeiro colocado em audiência - recebeu somente 5% das verbas. O Trece pertence ao Grupo Clarín, crítico do governo Kirchner e considerado inimigo mortal pela presidente Cristina.

O Canal Nove - que recebeu US$ 18 milhões da verba de publicidade do governo - pertence ao empresário mexicano Ángel Remigio González-González, apelidado de "El Fantasma" por supostos negócios obscuros. Seu canal transmite diversos programas - entre eles Duro de Domar, Televisión Registrada e o Bajada de Línea - cujos apresentadores fazem duras acusações aos partidos da oposição e à mídia, além de apologias ao governo Kirchner.

Segundo a deputada do partido de esquerda Projeto Sul, Alcira Argumendo, o privilégio destinado ao Canal Nove "é mais uma demonstração do "amigopólio" do governo Kirchner", em alusão irônica ao monopólio de meios de comunicação aliados que a presidente montou nos últimos anos.

Ao longo de 2010 diversas denúncias, com base em dados oficiais, indicaram que o governo também privilegiou com publicidade oficial os jornais alinhados. O caso do jornal BAE é o que mais chama a atenção dos analistas, pois ele possui uma tiragem de apenas 1.800 exemplares diários. Mas recebeu no primeiro semestre US$ 2,8 milhões, enquanto o conservador La Nación - crítico do governo Kirchner - que conta com 160 mil exemplares diários durante a semana, somente obteve US$ 788 mil.

Eleições. A presidente Cristina lidera as intenções de votos para as eleições de outubro, segundo indicou uma pesquisa elaborada pela consultoria de opinião pública Management & Fit.

A pesquisa indica que, em novembro, Cristina contava com 38,7% de intenções de voto. Na época, a presidente foi favorecida pela morte de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, em 27 de outubro, de um ataque cardíaco. Mas esse período - durante o qual a oposição e a mídia evitaram críticas diretas a Cristina - acabou em dezembro com o surgimento de diversos protestos sociais que acabaram com a morte de quatro pessoas, abalando a imagem do governo. Desta forma, segundo a pesquisa, a presidente conta atualmente com 29% das intenções de voto.

Mas, apesar da queda, Cristina conta com uma ampla vantagem sobre todos os presidenciáveis da oposição. O segundo colocado, o prefeito portenho, Mauricio Macri, do Proposta Republicana (PRO) tem apenas 3,6% das intenções de voto.

Os protestos sociais de dezembro, juntamente com a paralisia da oposição também provocaram uma queda generalizada da intenção de voto nos rivais de Cristina e elevou a proporção de indecisos de 28,1% para 49,1%.

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