Marcos Brindicci/Reuters
Marcos Brindicci/Reuters

Cristina provoca adversários ao falar de seu afastamento para tratar câncer

Presidente criticou sindicatos que ameaçam com greves e reivindicação de elevados aumentos salariais

MARINA GUIMARÃES, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2011 | 03h05

BUENOS AIRES - A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, mostrou-se sorridente em sua primeira aparição após o anúncio oficial de que tem câncer na glândula tireoide, pelo qual será submetida a uma cirurgia na quarta-feira. Numa reunião com governadores ontem, Cristina usou o tom habitual de seus discursos, misturando brincadeiras com ministros e estocadas a empresários, a sindicalistas, à imprensa e ao ex-vice-presidente Julio Cobos.

"Continuaremos com a mesma força de sempre", disse Cristina durante assinatura de acordo com governadores para adiar o pagamento das dívidas provinciais com a União.

Cristina ressaltou a importância de ter um vice-presidente como Amado Boudou. "Imaginem se nesse momento que vive o mundo, e nessa situação, assumisse um presidente que defenda o desaquecimento da economia ou a eliminação total dos subsídios", disse Cristina em alusão a Cobos, com quem rompeu relações no início de seu primeiro mandato.

Em todo caso, a presidente deu um claro recado a Boudou: "Cuidado com o que você vai fazer" nos 20 dias de exercício da presidência interina do país. A frase foi em tom de "brincadeira séria", esclareceu a presidente, presumindo que amanhã os jornais dirão que ela é autoritária e hegemônica. "Vão dizer que eu pressionei o vice-presidente para que faça o que eu quiser", afirmou.

A líder argentina avisou aos funcionários que as férias de janeiro estão suspensas durante sua licença médica. "Alguns já tinham pedido para viajar, mas todos terão de ficar aqui. Poderão ir algum fim de semana a alguma prainha ou lago", disse a presidente. Cristina pediu ajuda de todos "não para a presidente, mas para o país", no sentido de manter o modelo de crescimento, preservar empregos e melhorar a distribuição de renda.

A presidente criticou sindicatos que ameaçam com greves e reivindicação de elevados aumentos salariais. "Mais que brigar por direitos, parecem brigar por privilégios", afirmou ela, completando que "é bom ter direitos, mas não que esses se transformem em uma aristocracia sindical".

Ela agradeceu o apoio recebido de presidentes sul-americanos e relatou que o primeiro a ligar para ela foi Hugo Chávez (da Venezuela). "Eu disse a ele: Você e seu congresso - porque ele anda organizando um 'congresso dos líderes que venceram o câncer'. Te aviso que vou brigar com vocês pela presidência honorária (do congresso)", arrematou. Ela disse ainda que outros líderes, incluindo sua colega brasileira, Dilma Rousseff (mais informações na página A9), também telefonaram para expressar solidariedade.

Na noite de terça-feira, o porta-voz da presidência, Alfredo Scoccimarro, anunciou que o câncer na glândula tireoide, sem metástase, foi diagnosticado depois de exames de rotina no dia 22. O anúncio causou surpresa na Argentina, embora o governo trate de suavizar o impacto e evitar um tom dramático. Pela primeira vez em oito anos, a Casa Rosada transmitiu com objetividade uma nota oficial sobre a saúde de um presidente.

Os especialistas argentinos afirmam que a doença de Cristina tem entre 90% a 95% de chances de ser curada. Todos os representantes da oposição também manifestaram desejos de rápida recuperação da saúde da presidente. "Força Cristina" é a frase que mais circula no Twitter no país desde o anúncio da doença.

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