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Cristina recebe presidente eleito para iniciar transição argentina

Macri visita residência oficial da líder kirchnerista e é recebido com saudações de vizinhos eleitores

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2015 | 23h55

O presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, foi ontem a sua futura casa para acertar com a atual inquilina e inimiga política a transição que se consumará no dia 10. Cristina Kirchner pediu que ele visitasse sozinho a Quinta de Olivos, residência oficial na região metropolitana de Buenos Aires, a 17 quilômetros da Casa Rosada. Macri antecipou sua curiosidade por números reais da economia.

Horas antes do encontro, Macri afirmou que a reunião seria “curtinha”. “A Argentina está em um altíssimo nível de desinformação, produto de algo central que esse governo sempre fez, negar a realidade”, disse à Rádio Con Vos. Ele chegou de carro às 18h50 de ontem à residência presidencial, saudado por vizinhos de Cristina que gritavam “democracia”.

No domingo, Macri venceu o candidato de Cristina, Daniel Scioli, por 51,4% a 48,6%. Ele será o primeiro na democracia argentina a chegar à presidência sem pertencer ao peronismo ou à União Cívica Radical, legenda que compôs sua coalizão, a Cambiemos. Seu partido, o Proposta Republicana (PRO), foi criado por ele dez anos atrás.

A relação entre ambos nos oito anos em que administraram simultaneamente Buenos Aires e o país não foi boa. Macri esteve perto de concorrer contra Cristina em 2011. Foi desaconselhado por assessores em razão da alta popularidade da presidente, relacionada a uma elevação real dos salários e à morte de seu antecessor e marido, Néstor, em 2010.

No domingo à noite, Cristina surpreendeu ao saudá-lo pelo triunfo por telefone, após uma campanha em que o associou aos piores personagens da política local e à crise de 2001. A nomeação de milhares de funcionários ligados ao kirchnerismo nas últimas semanas e o segredo envolvendo dados como as reservas reais no Banco Central, estimadas em US$ 25,8 bilhões, fazem analistas preverem uma troca difícil no poder. “Deve ser difícil e complexo, mas ela tem uma faceta republicana maior até do que tinha Néstor”, avalia o sociólogo e consultor político Ricardo Rouvier.

Cristina deixa o poder com uma popularidade alta segundo vários institutos de pesquisa. Sua média de 40% de aprovação garantiu um público fiel a seu candidato, mas impediu que Scioli avançasse sobre os demais. “Certamente ela armará uma festa de despedida gigantesca. Essa é uma coisa que precisam negociar, para o novo presidente não ser hostilizado”, acrescenta Rouvier.

Sem cargo, Cristina deve voltar a viver na Província de Santa Cruz, no sul do país, berço político da família. Em abril, ela disse esperar não ter de voltar à presidência. Afirmou que seu sucessor seria melhor que ela. Nos meses seguintes, disse que seguiria sendo uma militante.

Em seu primeiro mandato (2007-2011), ela enfrentou a desconfortável oposição de seu vice, Julio Cobos, que participou da campanha de Macri. Opositor que melhor conhece a líder kirchnerista, Cobos acredita que uma tentativa de Cristina de voltar à Casa Rosada não depende apenas de sua vontade, que, segundo ele, é de ficar perto do poder. “Veremos. Se Mauricio (Macri) fizer as coisas corretamente, o povo o acompanhará e não haverá margem para um retorno”, disse ao Estado.

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