'Cristina usa métodos de Perón para pressionar mídia'

Ao impor lei que limita tamanho de empresas de comunicação, presidente argentina está copiando antecessor, diz analista

Entrevista com

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2013 | 02h04

O método do governo da presidente argentina, Cristina Kirchner, para pressionar a mídia inspira-se nas táticas do general e ex-presidente Juan Domingo Perón, fundador de seu partido, o Justicialista (Peronista). Essa é a visão da escritora Silvia Mercado, especialista em comunicação estratégica e historiadora que lançou recentemente o livro O inventor do Peronismo, no qual relata a vida de Raúl Apold, homem encarregado da comunicação do governo Perón entre 1946 e 1955.

Perón exerceu pressão contra a imprensa não vista nos períodos democráticos. Esse método foi copiado pelos Kirchners?

Perón e os Kirchners possuem em comum a convicção sobre a importância da comunicação. Raúl Apold, secretário de comunicação de Perón, mandava os técnicos sanitários aos jornais não alinhados para fiscalizar os banheiros. Se estavam sujos, violando leis sanitárias, encontrava os mais peculiares argumentos "legais" para o fechamento das empresas. Apold e outros membros do governo Perón também ordenavam ao sindicato dos jornaleiros fazer greve para não distribuir jornais 'inimigos'. A tática do governo Cristina é similar, pois manda a receita federal fazer uma blitz ou o sindicato dos caminhoneiros bloquear a porta das gráficas. Ou, ainda, aprova uma lei para controlar a produção de papel de jornal.

Qual foi a estratégia de Perón para asfixiar a mídia?

Em uma primeira fase de sua primeira etapa no poder (1946-52 e 1952-1955), Perón comprou os jornais que estavam com problemas financeiros. Na segunda fase, pôs em grandes dificuldades jornais que tinham boa saúde econômica e não se alinhavam. O plano de Apold para Perón era o de comprar o poderoso jornal La Prensa, o principal da América Latina naqueles tempos. No entanto, os donos - a família Gainza Paz - não aceitaram. Perón então pressionou reduzindo a cota do papel de jornal. Mas o jornal resistiu, enfurecendo Perón. O jornal foi forçado a circular com um volume minúsculo de páginas. Teve de reduzir o tamanho da fonte dos textos, criando um cenário grotesco no qual as pessoas que queriam ter outra fonte de informação que não fosse a dos meios peronistas tinham que ler o La Prensa com uma lente. O governo deu um golpe de misericórdia mandando um projeto de lei ao Parlamento para expropriar o jornal e o colocou nas mãos dos sindicatos.

O casal Kirchner aplicou seus planos, como num remake?

Em 2008, na época em que Néstor Kirchner e sua mulher, a presidente Cristina, começavam os primeiros choques contra o Clarín, ele foi apresentado a uma pessoa que havia conhecido Apold profundamente. Poucos dias depois, começaram a preparar a Lei de Mídia.

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