Cristina usa Olimpíada em campanha por Malvinas

Vídeo divulgado pelo governo Kirchner mostra atleta olímpico se exercitando nas ilhas para Jogos de Londres e provoca: 'treino em solo argentino'

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

05 Maio 2012 | 03h06

Praias com pinguins, campos de estepe, nuvens cinzas. As imagens de um spot publicitário apresentado nesta semana em Buenos Aires lembram a Patagônia. Mas uma legenda informa lugar e hora do dia: "Ilhas Malvinas 6 horas". Um jovem sai de uma casa. "Fernando Zylberberg: atleta argentino para a Olimpíada de Londres 2012", indica nova legenda. Ele corre pelas ruas e campos. Faz flexões numa praia. Beija rapidamente o chão. Quando se detém para observar as colinas, surge a legenda final: "Para competir em solo britânico treinamos em solo argentino".

Os kelpers (como são denominados os moradores da ilha) reclamaram da gravação, feita sem a autorização do governo local. Protestaram contra a imagem do atleta correndo na frente do memorial que a cidade tem para homenagear os mortos britânicos e kelpers na guerra, além das baixas ocorridas na Primeira Guerra na batalha naval das Falklands. De quebra, o atleta exercita os tríceps diante do The Globe, pub do vilarejo conhecido por ser o maior reduto "antiargentino" das ilhas.

Zylberberg disse não saber do objetivo das filmagens quando participou da gravação. Ele havia sido informado que eram para um "documentário sobre a paixão das maratonas". O atleta nem mesmo simpatiza com a presidente. Ele é militante do Proposta Republicana (PRO), partido de centro-direita do prefeito portenho Mauricio Macri.

Em Londres, o chanceler britânico, William Hague, definiu o spot como "manobra" destinada esconder uma série de "contratempos diplomáticos" do governo Kirchner.

Em Buenos Aires, o governo e seus aliados celebraram a "esperteza" do spot feito de forma clandestina, aproveitando uma maratona no arquipélago. A oposição argentina criticou o vídeo, afirmando que aumenta a resistência dos kelpers e de Londres a negociar a soberania das ilhas.

O spot foi preparado originalmente pela filial argentina da Young & Rubicam como parte de um concurso interno em Buenos Aires, que depois seria oferecido aos integrantes da carteira de clientes. A Casa Rosada soube do spot e decidiu comprá-lo, como forma de espetar os britânicos.

O vídeo desatou a fúria na sede da Young & Rubicam, em Nova York. "Condenamos energicamente esse trabalho e já pedimos ao governo argentino que cancele o spot", afirmou a agência ontem, ao sustentar que o vídeo vai contra a política da empresa de não se envolver com política. "Os publicitários comportaram-se de forma inaceitável."

Reprovação. O presidente do Comitê Olímpico Argentino, Gerardo Wertheim, criticou o spot ao afirmar que "os Jogos Olímpicos não são uma plataforma para discutir política".

O governo Kirchner prepara uma campanha publicitária, com eventos culturais e distribuição de folhetos em Londres durante os jogos.

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