Cristina vs. Clarín

E o Dia D argentino veio e se foi, e nada aconteceu. Melhor para Argentina. A longa e dura disputa entre a presidente Cristina Kirchner e o grupo de mídia mais poderoso da Argentina, o Clarín, é a face mais visível do choque de interesses que ameaça arrastar o país para a paralisia política.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h03

O desfecho anunciado foi para o dia 7. O governo estabeleceu essa data-limite para que o Grupo Clarín acatasse a Lei de Mídia e se desfizesse de diversas das suas empresas, acabando com seu poder supostamente monopolista na imprensa argentina.

O jornal centenário argentino resistiu, dizendo-se vítima de manobra arbitrária e inconstitucional. Mas esta semana, para alento dos donos do Clarín, um magistrado do tribunal federal concedeu mais tempo para o jornal preparar sua defesa. A peleia está longe de uma solução, mas a cautela do juiz já injeta um saudável tom de equilíbrio no confronto que põe em rota de colisão as elites mais tradicionais do país.

É longa e tinhosa a história de desentendimento entre o Grupo Clarín e o governo, mas se agravou a partir de 2008, quando Cristina, recém empossada, elevou os impostos dos agricultores, deflagrando um confronto que quase levou o país ao desabastecimento. O Clarín tomou as dores do setor rural, responsáveis por boa fatia do PIB argentino, e comprou briga com a Casa Rosada. O tom exaltado dos editorais contra um governo de apenas quatro meses não agradou a todos, muito menos à base kirchnerista, que acusou Clarín de "golpista". Foi a deixa perfeita para a presidente declarar guerra franca ao seu inimigo mor - o jornalismo independente.

De lá para cá, o clima só piorou. Cristina parou de dar entrevistas e, segundo um antigo porta-voz, enxerga toda crítica como traição à pátria. Multiplicaram-se as manobras contra a imprensa. Algumas delas de legalidade discutível, outras escancaradamente autoritárias. No país onde o instituto de estatísticas só divulga dados autorizados, quem ousa contar que a inflação é na verdade o dobro do número chapa-branca, arrisca-se ganhar multa, cadeia ou ambas.

Em 2011, o governo estatizou a empresa Papel Prensa, fornecedora de bobinas de papel para os principais jornais, com o argumento de que os donos adquiriram a concessão graças à bênção da ditadura militar. O argumento era risível, já que a imprensa argentina travou oposição dura à ditadura. Mas o governo acertou o alvo. Os maiores acionistas da empresa Prensa Papel eram o Clarín (49%) e La Nación (23%).

Se fosse apenas argentino esse espasmo contra a imprensa, seria ruim. O fato de ser uma onda que varre parte considerável do Hemisfério Ocidental sugere uma tragédia que mancha o bom momento das Américas. Pior, as maiores agressões contra a mídia independente ocorrem sob a pátina da democracia, nos países onde líderes eleitos usam o carisma e as maiorias legislativas para reeditar as leis. Bolívia, Equador, Nicarágua e Venezuela - todos avançam sobre a imprensa independente com o aval das urnas.

Se o venezuelano Hugo Chávez é o maestro da intimidação, o equatoriano Rafael Correa não deixa por menos. Desde que assumiu, em 2007, nacionalizou canais de rádio e televisão, criou dezenas de estatais e serviu-se à vontade da grade dos demais. Convocando cadeias nacionais ao seu bel prazer, já fez 1.025 discursos em 3.075 horas de programação de rádio e televisão. Para quem não goste e se atreva a falar, sobra a mordaça, amarrada com a mão de juízes amigos do rei. No governo Correa, os tribunais equatorianos já mandaram fechar 17 rádios e TVs.

A campanha de Cristina contra o Clarín é um raio x do estado da imprensa no flanco mais febril das Américas. Mas o paciente está bem pior.

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