Critérios para avaliar o debate

O candidato que oferecer um plano econômico ousado para tirar o país da crise vencerá a eleição presidencial nos EUA

Thomas L. Friedman, The New York Times, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2012 | 03h02

WASHINGTON - Precisei escrever essa coluna antes do encerramento do debate presidencial. Por isso, acredito que a coisa mais útil que posso fazer é oferecer-lhes o sistema de pontuação que usarei para determinar quem se saiu melhor. Vocês mesmos poderão marcar os pontos. Meu sistema não tem base em comentários mordazes ou argumentos para estimular a militância, mas no que acredito que muitos americanos realmente querem do próximo presidente.

Acredito que, desta vez, é diferente. Que muitos americanos entendem que alguma coisa está muito errada e adotarão um candidato que lhes confie a verdade, isto é, um diagnóstico honesto do pé em que estamos e de como sair da encrenca. Até agora, nenhum candidato se dispôs a isso.

Assim, tratarei primeiro do diagnóstico honesto. Estamos onde estamos hoje, em parte, porque a fusão de globalização com tecnologia da informação transformou a maneira como bens e serviços são comprados e vendidos, fabricados e planejados. Essa fusão torna empregos antigos obsoletos mais rapidamente e cria novos empregos mais rapidamente, mas todos os bons empregos novos requerem maiores habilidades.

Como país, segundo Lawrence Katz, economista da Universidade Harvard, os EUA, historicamente, asseguraram que a força de trabalho se mantivesse afinada com as novas tecnologias pela firme expansão da educação pública. Primeiro, a educação primária universal. Depois, a educação secundária universal. Desde os anos 80, porém, quando era preciso ter mudado para alguma forma de educação pós-secundária universal para acompanhar o ritmo da globalização e da tecnologia da informação, não o fizemos. Em vez disso, segundo Katz, "as taxas de formação no ensino médio pararam de melhorar e o crescimento da diplomação universitária desacelerou substancialmente". Hoje, os trabalhadores americanos com 50 anos ou mais são os mais educados do mundo, os trabalhadores mais jovens estão no meio do pacote global dos países industrializados e a taxa de evasão escolar nacional continua alta, em torno de 25%.

Então, o que é preciso fazer? Os EUA criaram emprego para trabalhadores não especializados com uma injeção maciça de crédito subprime que originou um grande número de construção de moradias e empregos no varejo. Enquanto isso, Wall Street também inchava, em parte, por mudar de um setor que financiava a "destruição criativa" com novas empresas para um setor, como observou o economista Jagdish Bhagwati, que financiava a "criação destrutiva" de instrumentos financeiros improdutivos.

"Durante muitos anos, os motores de criação de empregos dos EUA foram excessivamente reorientados de mercado globais competitivos para setores orientados para dentro, que foram elevados a níveis insustentáveis - como, por exemplo, construção, finanças, habitação e varejo, de acordo com Mohamed el-Erian, presidente executivo da Pimco.

"O resultado foi uma força de trabalho desequilibrada e vulnerável. Essa geração também exagerou no endividamento e na habilitação ao crédito. Foi seduzida pela engenharia financeira. Crescimento genuíno pequeno demais, endividamento demais e uma cultura de risco ensandecida culminaram na complexa crise financeira global de 2008 e suas consequências - um choque caro para a sociedade cujo impacto persistirá ainda por muito tempo", diz El-Erian. "Durante anos, as sociedades ocidentais tiveram uma educação mal financiada. Enquanto os EUA desciam nos rankings, estavam convencidos de que a vantagem global tradicional em empreendedorismo e inovação poderia compensar os declínios na realização educacional. Não pode."

Tudo isso chegou a um estado crítico nos terríveis anos 2000. Os mercados de habitação e crédito explodiram, criando uma crise bancária sistêmica e uma dolorosa recessão, que coincidiram com nosso déficit educacional cada vez mais agudo, que coincidiu com duas guerras e um grande corte de impostos que agravou dramaticamente o déficit nacional. O resultado é um buraco profundo.

Esse buraco requer que os EUA, agora, cortem gastos, elevem e reformem impostos, estimulem a economia com investimentos em infraestrutura, pesquisa e professores, estimulem a criação de novas empresas e ofereçam mais educação pós-secundária vocacional e universitária.

Portanto, procurem ouvir algo como esse diagnóstico dos candidatos. Segundo, procurem ouvir um plano que se coloque à altura desse desafio, que proponha investimentos em infraestrutura criadora de empregos associados a um programa para estimular a criação de mais empresas, associado a um plano crível de redução do déficit - que seria introduzido progressivamente com a recuperação da economia -, associado a um plano para obter mais educação pós-secundária de americanos.

Sim, eu sei, o presidente Barack Obama tem muitas iniciativas assim, mas ele não fez delas as peças centrais da sua campanha, nem as salientou em suas propagandas eleitorais ou as associou a um pacote persuasivo que tire as pessoas de suas cadeiras, dizendo: "Sim, ele tem a resposta!". Em vez de fazer campanha sobre como o seu plano é bom, ele fez campanha sobre como o de Mitt Romney é ruim.

Derrota. Terceiro, o país quer um plano que seja justo. Os ricos têm de pagar mais, mas todos devem contribuir com algo. E quarto, o país precisa de um plano que seja ambiciosamente inspirador, um plano que trate de fazer dos EUA um grande país para a próxima geração, e não de um mero projeto para "equilibrar o orçamento".

Faz um ano que venho defendendo que o candidato que oferecer um plano como esse vencerá a eleição. Se nenhum dos dois o fizer, algum deles vencerá mesmo assim - provavelmente por margem estreita -, mas o país perderá de goleada. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

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