Crítica a acordo com Irã marca 20 anos de atentado contra Amia

Acordo de Cristina Kirchner com Irã prevê criação de comissão da verdade para investigar ataque que completa 20 anos

Ariel Palacios, CORRESPONDENTE/ BUENOS AIRES

18 Julho 2014 | 14h36

BUENOS AIRES - Lideranças da comunidade judaica argentina e parentes das vítimas do atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA) pediram nesta sexta-feira que o governo da presidente Cristina Kirchner "tome medidas concretas" e revogue o acordo feito no ano passado com o Irã para criar uma "comissão" para investigar o ataque terrorista que em 1994 matou 85 pessoas e feriu e feriu outras 300 no bairro portenho de Balvanera. O atentado constitui o maior ataque terrorista da História da América Latina.

Durante os discursos em memória dos mortos do atentado que completou 20 anos, o vice-presidente da AMIA, Ralph Thomas Saieg, pediu que o Parlamento revogue o acordo e que o governo Kirchner "tome ações para reclamar justiça no máximo nível internacional". 

Saieg também ressaltou que o governo Kirchner atarefa-se em pedir respaldos internacionais para reivindicar as ilhas Malvinas ou para solicitar apoio no conflito que a Casa Rosada mantém com os credores da dívida pública. No entanto, o governo Kirchner não pede o respaldo do Mercosul, Unasur, OEA e outras organizações para avançar no julgamento dos culpados.

Saieg sustentou que os iranianos acusados do atentado deveriam ser "submetidos a um julgamento na Argentina". As lideranças da comunidade judaica e integrantes dos partidos da oposição afirmaram que os pedidos de captura emitidos pela Interpol "não devem ser apenas uma mera formalidade".

Entre as figuras que a Justiça em Buenos Aires quer colocar no banco dos réus pela acusação de organizar o ataque contra a Amia está Ahmad Vahidi, atual ministro da Defesa, que em 1994 ocupava o posto de comandante da Força Quds. Nesta sexta-feira, o lema das cerimônias pelos mortos na AMIA foi "nem um dia de esquecimento". 

A cerimônia foi encerrada com uma mensagem do papa Francisco gravada em um vídeo, no qual o sumo pontífice sustenta que o atentado de 1994 "foi uma tragédia, uma loucura". Segundo o papa, um portenho do bairro de Flores, "o terrorismo é uma loucura, que só sabe matar, não sabe construir. Só destrói!"

Histórico. A Justiça argentina acusa um grupo de altas autoridades que integravam o governo iraniano da época do presidente Ali Akbar Rafsanjani, de terem organizado o ataque em conjunto com o Hezbollah e uma conexão argentina. No entanto, em janeiro de 2013, depois de seis meses de negociações secretas que incluíram reuniões de chanceleres na Etiópia, a Casa Rosada anunciou um acordo com o Irã para criar uma "comissão da verdade" conjunta para investigar o atentado. 

A comunidade judaica e partidos da oposição criticaram o pacto, sustentando que implicaria em um retrocesso para as investigações. Além disso, acusaram o governo Kirchner de ignorar as decisões da Justiça em Buenos Aires.

Em fevereiro do ano passado a presidente Cristina conseguiu aprovar o acordo graças à maioria que possui no Parlamento. No entanto, apesar da aprovação do acordo pelo lado argentino, o Parlamento em Teerã nunca aprovou o pacto. 

A Câmara Federal de Justiça em Buenos Aires declarou a inconstitucionalidade do acordo com o Irã. No entanto, esta decisão ainda precisa passar por outras instâncias judiciárias na Argentina. 

A presidente Cristina Kirchner, pelo terceiro ano consecutivo, não participou das cerimônias . O chefe do gabinete de ministros, Jorge Capitanich, sustentou que a presidente Cristina não participou da cerimônia "porque hoje recebe o presidente da China que é um fato relevante na política internacional".

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