Cronologia de um naufrágio

[29/8 10:08] Amigos, nossa professora, Tamana, o marido, os pais e os irmãos dela estão tentando ir da Turquia para a Grécia. Muitos têm morrido nessa travessia e as condições na chegada são deploráveis. Eles pretendem chegar à Alemanha, mas o caminho é muito perigoso. Estão arriscando tudo nessa fuga.

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

24 Outubro 2015 | 07h36

Conheci a jovem Tamana Hedayat quando ela dava aulas de dari para estrangeiros e crianças pobres afegãs em uma escola em Cabul mantida com ajuda internacional. Ela crescera refugiada no Paquistão, para onde a família fugiu após ter a casa bombardeada nos anos 1990 - logo depois o Taleban assumiria o poder. Com a chegada dos EUA, em 2001, eles decidiram voltar, levados pela perspectiva de paz e reconstrução do país. Quatro milhões de afegãos fizeram o mesmo.

Mais de uma década depois, quando a encontrei em 2012, o progresso esperado não havia chegado. O Talibã voltara com força, os atentados terroristas tinham se tornado endêmicos e as tropas da coalizão lideradas pelos EUA, que em maio de 2011 mataram Osama bin Laden, começavam a deixar o país – com elas, a ajuda e os investimentos externos, levando a economia ao colapso.

Tamana começou a sonhar com a Europa.

[29/8 11:13] A situação não é fácil. Esta semana um caminhão com os corpos de 71 refugiados mortos por asfixia foi encontrado na Áustria. Não há mais esperança em seus países de origem, mas a situação no refúgio é também muito triste.

No ano passado, Tamana conheceu um jovem afegão. Os dois se casaram e, por algum tempo, ela deixou de pensar em partir. Em novembro, no entanto, o diretor da organização internacional que administrava a escola onde ela dava aulas foi assassinado com os dois filhos adolescentes (os nomes foram omitidos para preservar a identidade da mãe, única sobrevivente) em um ataque do Taleban, que visava aterrorizar e expulsar os estrangeiros.

A escola fechou as portas e os expatriados deixaram o Afeganistão.

Pouco depois, Tamana descobriu que estava grávida. Os rumores, então, eram de que o Talibã já controlava áreas a meia hora de Cabul. No primeiro semestre, a insurgência matou mais de 1,5 mil afegãos e deixou 5 mil feridos – 25% crianças, segundo a ONU. A ideia de criar um filho nessas condições a aterrorizavam. “Muitas promessas nos foram feitas e havia esperança. Mas o Talibã está de volta e eu não vou permitir que meus filhos passem por tudo de novo”, disse, então, a mãe de Tamana, que também estava grávida quando a família se refugiou no Paquistão nos anos 1990. A família decidiu vender tudo e partir.

O irmão mais velho de Tamana viajou primeiro e conseguiu chegar à Holanda. Os demais o seguiram. Eles deram U$ 5 mil por pessoa a um traficante – parte disso em propina a servidores para entrar na Turquia.

[30/8 00:03] Eles estão aguardando um sinal do traficante que vai atravessá-los, via Bulgária. É arriscado. Mas eles têm medo de ir por mar.

O aumento da segurança e a construção de muros nas fronteiras terrestres da Turquia com Grécia e Bulgária têm empurrado milhares de refugiados ao Mediterrâneo. Mas a maioria dos afegãos não sabe nadar e a família de Tamana temia a travessia por mar.

[10/9 16:56] Queridos, não temos notícias de Tamana e família há oito dias, desde que partiram.

Ao tentar cruzar a fronteira por terra para a Bulgária, a família foi presa por policiais búlgaros, ficou detida três dias, sob ameaças de ser deportada, e pagou US$ 400, cada um, em propina por sua libertação. Além do dinheiro, teve tudo o que levavam roubado.

De volta à Turquia, após dias de viagem em condições muito difíceis, Tamana procurou uma clínica para refugiados. Ela queria ter certeza de que estava tudo bem com o bebê e soube que esperava uma menina – deu a ela o nome da protagonista de uma novela turca. A única chance que restava à família era atravessar por mar e ela ligou uma última vez para o irmão na Holanda, pedindo que ele enviasse mais US$ 3,3 mil à conta do traficante.

A família embarcou às 19h45 em um barco de madeira no balneário turco de Ayvalik com destino à ilha de Lesbos, na Grécia.

[18/10 13:44] Queridos, o traficante disse ao irmão de Tamana na Holanda que todos chegaram bem. Ficamos felizes. Mas, hoje cedo, ele ligou novamente. Havia um som de choro e lamentação pela casa. Na verdade, o barco naufragou. O irmão que estava a bordo viu os pais afundarem. Tentou salvar a caçula, mas não conseguiu. Ficou à deriva até ser resgatado e devolvido à Turquia. Lá soube que dezesseis pessoas foram salvas. Ele está desesperado para saber se a outra irmã (nossa amiga Tamana) e o marido estão vivos.

[18/10 14:53] Falei com o irmão da Tamana. Os pais, a irmã mais nova e o marido morreram. Os corpos de todos já foram encontrados. Ela está desaparecida.   

Mais de três mil refugiados morreram no Mediterrâneo este ano. O número pode ser maior, porque muitos corpos que chegam às margens não podem ser identificados e são enterrados por pescadores como indigentes.

[18/10 17:54] Muito triste, uma tragédia, e isto esta acontecendo todos os dias.

O irmão de Tamana que vive na Holanda não pôde viajar para se despedir dos pais e da irmã caçula, mortos no naufrágio, porque sua situação de refugiado ainda não foi legalizada. O mais novo e único sobrevivente voltou a Cabul para enterrar a família. Até o fechamento desta coluna, Tamana, de 25 anos e grávida de cinco meses, não havia sido encontrada.

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