AFP PHOTO / Saudi Royal Palace / BANDAR AL-JALOUD
AFP PHOTO / Saudi Royal Palace / BANDAR AL-JALOUD

Crucificação é recado saudita ao Canadá

Execução de birmanês em Meca teria relação com críticas do governo canadense à monarquia; execuções crescem após série de reformas 

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2018 | 05h00

Em meio a uma disputa diplomática ligada a direitos humanos com um país cristão – o Canadá –, a Arábia Saudita crucificou um homem, chamando a atenção para o método ainda usado pelo país. A versão de crucificação na Arábia Saudita não prevê a morte na cruz, mas sim expor o corpo do condenado decapitado, com a cabeça pendurada junto a ele. Este tipo de execução está no código penal saudita, escrito segundo a sharia (lei islâmica). 

No entanto, o método não é o mais comum no país que, segundo organizações internacionais, está entre os que mais usam a pena capital. O meio de execução mais praticado é a decapitação. Em 2017, Riad ocupou a segunda posição no relatório da Anistia Internacional sobre países cujos números de execuções são conhecidos, com 146 mortes (o Irã, em primeiro, executou 507 pessoas). 

A escolha pela crucificação, uma mensagem para que outros não cometam o mesmo crime, foi vista como um recado àqueles países que vinham criticando o reino por não respeitar os direitos humanos.

A crucificação é anterior ao cristianismo. Segundo estudos históricos, teria se originado com os assírios e babilônicos. No Alcorão, é citada na Surata (Capítulo) 5. Os romanos recorreram à crucificação por cerca de 500 anos até que ela fosse abolida por Constantino, no século 4.º, quando ele se converteu ao cristianismo. 

Desde então, como explica o historiador e professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC-Minas Rodrigo Coppe Caldeira, hoje a imagem da cruz está ligada não só à cristandade, como ao Ocidente. 

Papa

Segundo noticiaram agências oficiais sauditas no dia 8, o birmanês Elias Abulkalaam Jamaleddeen foi executado e crucificado por assassinato e roubo. No mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir, declarou que esperava que o Canadá revisse sua posição sobre críticas ao reino. 

Na semana anterior, a chanceler canadense, Chrystia Freeland, havia pedido a libertação de ativistas condenados por “insultar o Islã”, o que Riad considerou uma interferência nos assuntos internos. No início do mês, o papa Francisco declarou a pena de morte inadmissível. 

“A crucificação é um tipo de pena que é para ser vista. Não se mata alguém escondido, não é como as execuções, por exemplo, nos EUA, por injeção letal e cadeira elétrica”, diz Caldeira.

Associado a isso, o historiador explica que, apesar de descolados da religião, os direitos humanos têm uma história pregressa que é a do cristianismo, influenciando-os na forma de ver o ser humano. “Por que não só decapitar a pessoa? Por que a cruz? Isso traz essa memória de Ocidente.”

De acordo com informações oficiais, a crucificação de Jamaleddeen foi conduzida na cidade sagrada de Meca. O diretor da Organização dos Direitos Humanos Europeia-Saudita (em Berlim), Ali Adubisi, explica que as crucificações – e execuções em geral – costumam ser conduzidas no local onde o crime ocorreu. 

Reformas

Adubisi afirma que as execuções na Arábia Saudita têm aumentado significativamente depois que o rei Salman chegou ao poder, em 2015, e o príncipe herdeiro, Mohamed bin Salman, começou a implementar reformas. No ano anterior, o reino havia conduzido 88 execuções, a maioria – 42 – por tráfico de drogas. Em 2015, o número quase dobrou e chegou a 157. 

Os dados contrastam com as promessas de reformas. “Devemos ver as mudanças, como mulheres dirigindo, mais como campanha de propaganda do que reformas propriamente ditas, especialmente porque as ativistas que defendem esse direito foram presas”, disse Adubisi. 

Para Entender

Segundo estudo The History and pathology of crucifixion, publicado por pesquisadores da Universidade do Estado Livre, de Bloemfontein, a morte na crucificação ocorre por variados fatores, mas o mais importante é a asfixia progressiva causada pelo comprometimento do movimento respiratório. 

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