World Animal Protection
World Animal Protection

Crueldade com leões vai além da caça

Relatório mostra que parques criam animais para oferecer contato com filhotes a turistas como ‘gatinhos’; destino na idade adulta é incerto

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 22h15

A morte do leão Cecil no Zimbábue, que se tornou uma comoção internacional ao longo das duas últimas semanas, é o ápice mais cruel de todo um sistema que maltrata e fere a fauna nativa africana. É o que aponta a ONG internacional World Animal Protection, que investigou os impactos do turismo na vida dos leões no continente. O grupo lança nesta segunda-feira , 10, – oficialmente o Dia Internacional dos Leões – um relatório sobre como outras práticas turísticas, que vão além da caça legal e ilegal, estão ameaçando a espécie.

De acordo com o trabalho, pelo menos 5.800 leões vivem em cativeiro na África do Sul. Boa parte deles é criada para abastecer os chamados “parques de leões”, onde os visitantes podem brincar com os filhotes e tirar fotos com eles como se fossem gatinhos. 

No país, segundo a ONG, existem mais animais em cativeiro que livres – os criados para o turismo representam 68% do total de leões do país. A investigação foi feita somente na África do Sul, mas, de acordo com a organização, cativeiros para procriação de leões também se espalham pelos outros países do sul do continente.

O relatório Diversão cruel: como o turismo está matando leões africanos aponta que esses parques vendem a ideia de que “turistas podem viver uma experiência única, aproximando-se de leões selvagens criados em cativeiro”. De acordo com os autores do trabalho, a situação, porém, é de extremo estresse para os animais.

Os filhotes, que na natureza são desmamados por volta dos 8 meses de vida, nesses cativeiros são separados das mães com apenas 1 mês – já ficando disponíveis para ser tocados, acariciados e amassados por turistas ao longo do dia. Em um caso, os ambientalistas testemunharam um turista sendo autorizado a disciplinar filhotes mais agressivos com tapas.

Caça enlatada. O cenário fica mais obscuro quando os animais crescem. A ideia desses parques é oferecer filhotes e não é muito claro, de acordo com a ONG, para onde eles vão quando ficam adultos.

Ao contrário de iniciativas conservacionistas de procriação, voltadas para reintroduzir os animais na natureza, os leões criados nesses parques não têm condições de sobreviver com outros animais selvagens nas savanas. A espécie é considerada vulnerável à extinção.

Segundo Kate Nustedt, diretora internacional de vida silvestre da World Animal Protection, os parques, quando questionados sobre o destino dos adultos, negaram que eles sejam levados para locais de caça “enlatada” ou “fazendas de leões”, nos quais animais nascidos e criados em cativeiro são caçados em uma área confinada e pequena, de onde eles não têm como fugir.

“Mas nós temos evidências de que os proprietários admitem ter pouco controle sobre o que acontece com os leões depois que eles são vendidos. Acreditamos ser inteiramente possível que os mesmos filhotes que são acariciados e usados para fotos nos parques podem mais tarde virar alvo de caça”, disse Kate ao Estado. 

A justificativa oficial dos parques de leões é que os adultos são sacrificados ou são enviados para zoológicos.

Estimativas de organizações como Associação dos Predadores da África do Sul e Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Ameaçadas apontam para algo entre 800 e 1.000 leões feridos a bala por ano na África do Sul. Em geral, em operações legais.

O relatório sugere que os parques sejam fechados e a “caça de troféu”, proibida. “Como o assassinato do leão Cecil destacou, a caça não só é uma das mais cruéis formas de abuso de animais, como também pode ter um impacto devastador sobre os esforços de conservação e muitas vezes causa sofrimento prolongado para os animais selvagens”, afirmou Kate. 

“A prole de animais caçados pode ser deixada para trás, incapaz de sobreviver sozinha, e predadores podem avançar sobre grupos vulneráveis, causando impacto sobre as populações ainda mais. A caça para entretenimento serve como combustível à demanda por produtos animais selvagens, e deixa espécies inteiras sujeitas a uma maior exploração”, exemplifica.

A ONG defende que uma alternativa mais conservacionista para não arruinar o turismo dos países africanos seria investir somente na visitação de parques naturais. Apenas na África do Sul existem 400 parques em que os leões selvagens podem ser observados à distância, sem prejudicar a espécie. 

Transporte banido. Ao longo da semana passada, em consequência da repercussão da morte do leão Cecil, várias companhias aéreas, como Delta Airlines, American Airlines e United Airlines, baniram o transporte de partes de qualquer animal morto como troféu de caça. Foi mais um revés para países que permitem a atividade.

O governo da África da Sul criticou a decisão ao dizer que ela pode prejudicar uma indústria que rende cerca de US$ 500 milhões por ano. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

Tudo o que sabemos sobre:
Leão CecilZimbábue

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.