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Crueldade de Salvini

De tempos em tempos, os corações vibram e fazem ouvir sua voz

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2020 | 05h00

Matteo Salvini, o homem forte da Itália, chefe da Liga, poderoso partido de extrema-direita, era ministro do Interior do último governo e, como tal, concebeu e aplicou uma cruel política de imigração: fechou os portos italianos sempre que um “barco à deriva”, carregado com centenas de “migrantes” (líbios, africanos, etc.) tentava se refugiar na Europa, longe da morte.

Essa decisão garantiu a fama e o poder político de Salvini. Finalmente, disse a maioria dos italianos, um homem lúcido e corajoso. Em vez de nos cansar com queixas, arrependimentos e orações, apiedado da tragédia dos migrantes, Salvini ataca a catástrofe pela raiz – e que se danem as almas sensíveis. A Europa está sendo assolada por novas “invasões bárbaras”. Salvini manda esses invasores de volta a seus desertos. E que se danem os sentimentos do coração.

O problema do coração é que ele é caprichoso. Por um bom tempo, engole as cobras e lagartos que lhe dão de comer os agrimensores, os contadores, os técnicos, os sensatos. Mas, de tempos em tempos, os corações vibram e fazem ouvir sua voz.

Foi o que aconteceu na Itália: o Senado italiano acaba de autorizar que se apresente à justiça um processo contra Matteo Salvini, que quer expurgar a Itália – e toda a Europa – dessas pessoas desterradas.

Agora, para a surpresa de todos, o Senado italiano, tão pálido nos dias de glória de Salvini, recupera seu viço, lança fogo e chamas, autoriza um julgamento contra Matteo Salvini, acusado de “sequestro de pessoas”. Que surpresa! O chefe da Liga será processado “por recusar, durante mais de três dias, em julho de 2019, o desembarque de 131 imigrantes na Sicília”.

Os corações estão, portanto, no caminho certo. Mas ainda não venceram. O tribunal estará sob todos os tipos de pressão. Salvini não se dá por derrotado. Imediatamente forneceu um argumento a seus seguidores: lembrou que, na época da “caça aos migrantes”, suas iniciativas (o fechamento dos portos italianos às embarcações de ajuda humanitária) foram largamente aplaudidas por todos os ministros, pela maioria dos parlamentares e por quase toda a população.

Nenhum observador dos costumes políticos ficará surpreso. Os representantes do povo e o próprio povo são volúveis: um belo discurso, uma mudança na maioria, uma opinião forjada na esquina, e toda essa gente passa de mala e cuia para o campo cuja destruição vinham planejando até o dia anterior.

Então deixemos de lado nossas ilusões. Salvini é um bom orador. Pode reverter a opinião pública num único discurso. E hoje aqueles que o atacam têm muitos pontos fracos. O principal é o seguinte: os mesmos que até ontem aclamaram Salvini por sua coragem e crueldade para com os migrantes hoje o culpam por sua desumanidade contra os migrantes.

Há muita coisa em jogo. Se ele for levado à justiça, o petulante e talentoso chefe da Liga (quase fascista), o temível Salvini, poderá ser condenado a até 15 anos de prisão. Se for liberado, pelo menos poderemos nos certificar se o coração ainda tem alguns recursos e se continua eficaz. 

Os moralistas franceses do século 17 – ou século 18 – tinham um belo ditado: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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