Cruzeiros cada vez maiores dificultam resgate, dizem especialistas

Associações questionam se é preciso ampliar a segurança ou proibir navios de grande porte

BBC

17 de janeiro de 2012 | 18h18

 

PARIS - Navios de cruzeiro como o Costa Concordia, que transportava 4,2 mil pessoas e naufragou na costa italiana na sexta-feira, estão se tornando cada vez maiores e mais populares. E isso, segundo especialistas franceses, dificulta as operações de resgate em caso de acidente.

 

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Retirar milhares de passageiros e tripulantes de um navio exige uma logística com centenas de helicópteros - uma ajuda que nenhum país hoje tem condições de disponibilizar em um curto prazo de tempo.

"É uma loucura ter navios desse tamanho. Imagine um acidente como o do Costa Concordia em uma ilha distante, onde não há nada nas proximidades. É impossível salvar milhares de pessoas", disse à BBC Brasil Jacques Loiseau, presidente da Associação Francesa de Capitães de Navios.

"Desde 2006, a Organização Marítima Mundial nos pede para estudar a questão do gigantismo dos navios, sejam cargueiros ou de transporte de passageiros. Hoje, salvar uma grande embarcação representa um desafio real", diz o capitão Marc Gander, da Marinha francesa.

Transatlânticos

O Instituto Francês do Mar, uma associação que reúne profissionais do setor marítimo, já alertava, desde 2009, para os problemas decorrentes do aumento crescente do tamanho dos navios de cruzeiro e dos cargueiros.

"No caso dos transatlânticos com milhares de passageiros, é impossível determinar e instaurar previamente os meios necessários para o resgate, ainda mais se as condições meteorológicas forem desfavoráveis", diz o estudo divulgado na época.

 

"Existe uma dificuldade operacional para retirar rapidamente as pessoas e levá-las à terra firme", disse Eudes Riblier, presidente do instituto. Ele ressalta que os problemas aumentam se o acidente ocorrer em alto mar, diferentemente do que ocorreu com o Costa Concordia.

Um acidente em alto mar torna mais complicado o envio das embarcações necessárias para resgatar milhares de pessoas, diz ele. "Esse é o verdadeiro problema desse tipo de operação de salvamento."

Passagens mais baratas

As companhias de viagens marítimas vêm aumentando consideravelmente os tamanhos dos navios para transportar cada vez mais passageiros, o que permite popularizar esse tipo de turismo, com passagens mais baratas.

Há navios de cruzeiro ainda maiores do que o Costa Concordia. O 'Oasis of the Seas', da companhia Royal Caribbean, pode transportar cerca de 8,5 mil pessoas (quase 6,3 mil passageiros e uma tripulação de 2,2 mil pessoas). Esse navio possui 16 andares e 360 metros de comprimento. Ele é mais longo do que a Torre Eiffel, que possui 324 metros de altura.

Riblier, do Instituto Francês do Mar, ressalta, no entanto, que os grandes navios têm menor risco de acidentes e podem, em razão de seu tamanho, resistir melhor a colisões contra rochedos.

"A catástrofe do Costa Concordia não está ligada ao gigantismo do navio e ocorreu devido à imprudência do capitão. Um navio de menor porte teria afundado muito mais rápido mesmo com um rombo de apenas 70 centímetros no casco e não teria sido possível efetuar o resgate", afirma.

Mas mesmo se nesse caso o tamanho do navio representou "uma vantagem", diz Riblier, ele afirma que o acidente do Costa Concordia irá relançar discussões sobre o gigantismo dos navios de cruzeiro. "A questão é saber se devemos melhorar a segurança desses navios ou proibi-los."

 

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