AP Photo/Ramon Espinosa
AP Photo/Ramon Espinosa

Cuba adota as redes sociais

Regime cubano está tuitando, o que não o torna mais democrático ou tolerante com a dissidência

The Economist, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2019 | 05h00

Um dia antes de Miguel Díaz-Canel se tornar presidente de Cuba, em abril, um âncora da TV estatal pediu aos cubanos que se unissem num “tuitaço”. As hashtags que ele propôs foram #PorCuba e #SomosContinuidad. O próprio Díaz-Canel criou uma conta no Twitter em agosto.

Nas primeiras semanas, ele seguiu apenas Nicolás Maduro, o problemático déspota da Venezuela, e Evo Morales, primeiro presidente de esquerda da Bolívia. Em dezembro, na tentativa de tornar mais explicável para o povo a ditadura de Cuba, ele determinou aos departamentos do governo que se tornassem mais visíveis na rede social. Hoje, 24 dos 26 ministérios estão no Twitter, assim como a maioria dos ministros que os chefiam.

Um número cada vez maior dos 11 milhões de cidadãos cubanos pode tuitar de volta. Em dezembro, pela primeira vez, as redes de celulares 3G ficaram acessíveis a qualquer um na ilha comunista. Anteriormente, o principal acesso dos cubanos à internet eram os pontos públicos de wi-fi, que cobravam por hora. Apenas 37 mil residências tinham conexões com a web.

O acesso ao 3G, cobrado por megabites, está encorajando os cubanos a migrar de plataformas famintas de dados, como Facebook e Instagram, para o Twitter, menos voraz. Até o fim de janeiro, os 5,3 milhões de usuários de celular do país haviam adquirido 1,4 milhão de pacotes de 3G. 

O Twitter de duas vias parece estar reduzindo a distância entre governantes e governados. Depois que um tornado se abateu sobre Havana, em janeiro, a ministra do Comércio Interior, Betsy Díaz Velásquez, tuitou uma lista de alimentos com desconto disponíveis à população da área afetada. 

Conversa raivosa

Quando pessoas criticaram o governo, pelo Twitter, por não cuidar daqueles que haviam perdido suas casas, a ministra ofereceu a elas comida grátis. “Um ano atrás, eu não saberia dizer o nome de um único ministro cubano”, disse em dezembro o empresário Camilo Condis. “Agora, sei os apelidos de todos eles, reconheço seus rostos e tenho até a chance de interagir com alguns.”

Ultimamente, porém, a conversação vem se tornando mais raivosa. O mal-estar vem da tentativa do governo de modificar a Constituição por meio de um referendo marcado para hoje. Haveria mudanças modestas, como a legalização da propriedade privada (sujeita a regulamentação pelo Estado) e o limite de dois mandatos de 5 anos para o presidente. 

Os ânimos se exaltaram depois que a Assembleia Nacional anunciou, em dezembro (via Twitter), a derrubada da emenda que permitia o casamento no mesmo sexo. Em seu lugar surgiu um remendo reconhecendo o casamento como uma “instituição social e legal”, a ser definida posteriormente. 

Cubanos defensores dos direitos dos gays manifestaram sua fúria usando a hashtag #YoVotoNo. A hashtag foi ampliada para incluir outras queixas, como a não permissão para os cubanos elegerem diretamente seus líderes. Poucos esperam que o referendo seja uma votação justa. A hashtag ficou tão popular que o governo se viu obrigado a contra-atacar com um #YoVotoSi.

Essa nova hashtag está colada em ônibus, mercearias estatais e quiosques de sorvete. No desfile de 28 janeiro, em honra de José Martí, herói da independência, o governo distribuiu camisetas – um luxo em Cuba – ostentando a hashtag pró-Constituição. Pessoas que discordavam mais ativamente das mudanças foram detidas e hostilizadas pela polícia. Os dirigentes de Cuba podem ter aprendido a tuitar, mas não esqueceram como se cala a população. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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