Cuba ainda busca liberdade

Viagens ao exterior não estão liberadas, como Raúl Castro deu a entender com suas reformas, e a ilha sofre com prisões arbitrárias sem precedentes

ELZA, MOREJÓN, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2013 | 02h02

Há algumas semanas, Barack Obama convidou meu marido, Óscar Elías Biscet, e eu para um jantar comemorando o 50.º aniversário da Medalha Presidencial da Liberdade. Muitas pessoas achavam que, diante dos esforços de Obama para aprimorar as relações entre EUA e Cuba, Raúl Castro, presidente cubano, aprovaria a emissão de um passaporte para Óscar para que ele pudesse comparecer ao jantar. Não foi o que ocorreu.

Óscar é médico, mas não tem autorização para exercer a medicina. A Anistia Internacional qualificou-o como preso político pelos anos que passou encarcerado por defender os direitos humanos. É um partidário de Gandhi e Martin Luther King. Em 2007, o presidente George W. Bush concedeu a ele a Medalha da Liberdade, mas Óscar não pôde recebê-la porque estava preso, condenado a 25 anos. Foi libertado em 2011, mas, sob muitos aspectos, continua prisioneiro e não pode deixar a ilha.

Eu tive autorização para viajar a Washington e participei do jantar, ocasião em que Obama e o secretário de Estado John Kerry lamentaram a ausência do meu marido. Em razão da crença generalizada de que os cubanos hoje têm direito de viajar para o exterior, algumas pessoas manifestaram surpresa com o fato de Óscar não ter sido autorizado a deixar a ilha. O direito de viajar é usado, sem restrições, por bilhões de pessoas no mundo. É reconhecido pela Declaração Universal de Direitos Humanos da ONU.

Mas há muita confusão sobre o que vem ocorrendo em Cuba. Por exemplo, os presos políticos libertados há alguns anos com ajuda da Igreja foram compelidos a aceitar uma liberdade condicionada ao seu exílio e o de seus parentes na Espanha. Meu marido é grato a Obama e Bush, aos americanos e à Europa e à América Latina pelo apoio à liberdade dos cubanos. Óscar gostaria de relatar as trágicas condições sob as quais vive o povo de Cuba:

1. A repressão aumentou a um nível sem precedentes desde a década de 60. Centenas de prisões arbitrárias foram realizadas este ano, assim como ataques contra manifestantes pacíficos.

2. Raúl Castro não permite que a Anistia Internacional, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha e ONGs visitem as prisões cubanas.

3. As promessas de Raúl lembram muito as de Fidel. Em 2007, Raúl disse que todo cubano teria um litro de leite. Ainda estamos esperando.

4. A ajuda internacional enviada após o furacão Sandy não foi distribuída para as pessoas em áreas inundadas, mas dada às Forças Armadas e direcionada a lojas onde os produtos são vendidos a preços muito fora do alcance dos cubanos comuns.

5. Apesar dos esforços de Obama para melhorar as relações bilaterais, o regime cubano continua a manter um refém americano. Alan Gross foi condenado a 15 anos por ter dado um laptop e um celular para judeus cubanos.

Para muitos, a ascensão de Raúl extinguiria o apoio do regime ao terrorismo internacional, mas, há poucos meses, o Panamá interceptou um navio norte-coreano que transportava equipamento de radar antimíssil e outras armas - violando as sanções da ONU contra o envio de armamento para a Coreia do Norte.

À medida que o Natal se aproxima, meu marido e eu rezamos para que os recursos que Cuba consagra às Forças Armadas e à repressão sejam usados no combate à pobreza. Rezamos também para que a liberdade chegue rapidamente ao país. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ENFERMEIRA E ATIVISTA DISSIDENTE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.