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Cuba após o líder

Morte de Fidel Castro elimina a resistência à abertura econômica da ilha na direção do capitalismo de estilo chinês ou vietnamita, como deseja Raúl Castro há muito tempo

Lourival Sant'Anna, O Estado de S. Paulo

26 de novembro de 2016 | 19h00

A morte de Fidel Castro remove um obstáculo às reformas rumo a um “capitalismo de Estado” em Cuba. Sobretudo, elimina uma ambivalência até então sempre presente no núcleo do regime. A Raúl Castro sempre foi atribuída a linha dura repressiva contra qualquer tipo de oposição e crítica, e a Fidel, a resistência à abertura econômica. Por último, e não menos importante: rouba do regime o extraordinário carisma de Fidel, sua figura lendária, literalmente representada na sua estatura incomum, sua retórica abrasiva e incansável, em contraste com os modos contidos, a disciplina, sobriedade e frieza do irmão mais novo. Tudo isso aponta para uma mudança substancial, mesmo que não brusca.

Desde a consolidação do regime revolucionário em 1959, Raúl se firmou como o “braço armado”, por assim dizer, de seu irmão. Embora Fidel tenha ostentado até a morte o título “comandante em chefe da Revolução”, e ambos tenham lutado lado a lado, no fracassado assalto ao Quartel Moncada, em 1953, e na ofensiva final da Sierra Maestra, coube a Raúl a supervisão sobre o fuzilamento de 100 partidários do ditador Fulgencio Batista, já de início e, a partir daí, sobre a repressão que acompanhou o regime nessas quase seis décadas.

Ministro da Defesa, Raúl teve seu batismo de fogo em 1989. Devido a uma sensação de Fidel de que seu poder estava sob ameaça, ele teve de ordenar a prisão, seguida de execução, de um amigo, o popular general Arnaldo Ochoa, responsabilizado pelo tráfico de cocaína que abastecia a ilha com moeda forte, sob vista grossa de todos.

Em seguida, vieram a dissolução da União Soviética, que sustentava Cuba com combustíveis, maquinário e alimentos e, com ela, o “período especial”, quando os cubanos emagreceram - essa é a imagem de quem viveu aquela época -, tamanha a crise de desabastecimento. Nos anos 90, coube a Raúl vencer a relutância de Fidel em flexibilizar o sistema econômico, de modo a permitir investimentos estrangeiros, em joint ventures com estatais locais, e a abertura de pequenos negócios pelos cubanos. Fidel não escondeu sua amargura e temor com esse movimento que, para ele, ameaçava as conquistas da Revolução.

Substituição. A Venezuela assumiu o lugar da URSS como sustentáculo econômico do regime, a partir de 1999, e as reformas foram congeladas. Cuba passou a exportar médicos e professores em troca de dólares, deteriorando seu já precário sistema de saúde e ensino. O programa Mais Médicos, do Brasil, faz parte dessa política. Em 2014, a economia venezuelana começou a perder força, com a queda do preço do petróleo e a redução de sua capacidade de produção, pelo sucatamento da estatal PDVSA.

Cuba produz 50 mil barris de petróleo por dia e recebia, até o ano passado, cerca de 100 mil barris da Venezuela. Esse suprimento sofreu um corte de 40% neste ano. A redução da ajuda coincide com o corte na produção da própria Venezuela, que caiu em 170 mil barris por dia, para 2,18 milhões. Cuba usava esse petróleo não só como combustível e fonte de energia elétrica, mas também como fonte de receita, revendendo o excedente para obter moeda forte. As quedas do preço e do suprimento cortaram esse cordão umbilical.

O governo adotou o racionamento de energia elétrica em junho, reduzindo jornadas de trabalho dos funcionários públicos para economizar. Segundo dados oficiais, a economia cubana cresceu apenas 1% no primeiro semestre deste ano, enquanto em 2015 o crescimento foi de 4%. Neste semestre, as perspectivas são mais sombrias. O “período especial” voltou a rondar.

É nesse estado de coisas que Fidel sai de cena. Nos últimos anos, mesmo sob os protestos do irmão, Raúl implementou novas reformas, possibilitando o comércio de casas e de automóveis e a abertura de novos negócios. O reatamento das relações diplomáticas com os EUA também foi iniciativa dele, criticada publicamente por Fidel em suas colunas no jornal estatal Granma. Essa política está ameaçada agora, com a eleição de Donald Trump. E o Congresso americano, dominado pelos republicanos, recusou-se a abolir o embargo econômico contra a ilha.

Mudanças. O regime aumentou a liberdade para viagens - os cubanos, agora, podem voltar à ilha até dois anos depois da partida sem perder a cidadania. Tudo isso permitiu o aumento das remessas de dinheiro e de produtos de parentes no exterior para a ilha. Ao mesmo tempo, segundo dissidentes cubanos, a repressão política continuou intensa.

Essa combinação de relativa liberdade econômica, com parcerias entre investidores estrangeiros e o Estado, de um lado, com rígida preservação do regime de partido único, de outro, poderá agora se consolidar, levando o país na direção do capitalismo de estilo chinês ou vietnamita, como deseja Raúl há muito tempo. Entretanto, não se deve esperar mudanças drásticas. Como o próprio Raúl gosta de dizer: “sem pressa, mas sem pausa”. E agora sem a sombra ao mesmo tempo controladora e protetora de seu idolatrado irmão.

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