Cuba conhece hoje sucessor de Fidel

Assembléia Nacional oficializa saída de líder e define a nova hierarquia de poder; população não crê em mudanças

Roberto Lameirinhas, HAVANA, O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

Numa sessão histórica, no centro de convenções do Hotel Palco, em Havana, os 614 deputados da Assembléia Nacional cubana, eleitos em janeiro, marcam hoje, oficialmente, a saída de Fidel Castro da presidência de Cuba - cargo que ocupa desde o triunfo de sua revolução, em 1959. A decisão de retirar-se da chefia do Estado foi anunciada pelo próprio Fidel, em carta divulgada pelo jornal oficial Granma, na terça-feira. Especial multimídia Três das mais importantes figuras do regime são apontadas como favoritas para assumir o posto: Raúl Castro, irmão de Fidel, que já exerce a função de presidente desde o fim de julho de 2006 - quando o líder anunciou seu afastamento do poder para tratar uma grave doença no intestino -, o vice-presidente, Carlos Lage, de 56 anos, e o ministro das Relações Exteriores, Felipe Pérez Roque, de 42. Os dois últimos são integrantes de uma geração de dirigentes do Partido Comunista que nasceu ou foi educada após a revolução. Na opinião de "cubanólogos" que vivem no exterior, a eventual escolha de Lage ou de Pérez Roque poderia ser interpretada como um sinal da disposição do regime comunista de promover algumas mudanças, principalmente nos rumos da abalada economia da ilha. No entanto, entre os cubanos que receberam com eloqüente silêncio a decisão de Fidel de deixar definitivamente a presidência, há pouca expectativa de ajustes significativos, seja quem for o presidente escolhido hoje."Há alguns pontos que devem ser atacados, como a duplicidade da moeda e a falta de eficiência agrícola", disse ao Estado um diplomata ocidental baseado em Havana. "A existência de uma moeda para a população cubana (o peso nacional) e outra para estrangeiros (o peso conversível) criou distorções sociais incontroláveis. No caso da agricultura, o próprio Raúl, em um discurso feito em julho, defendeu a necessidades de mudanças na política agrícola para que o país seja capaz de produzir mais do alimento que consome."O peso nacional tem uma cotação de 25 para cada US$ 1. Já o conversível tem cotação de 1 para US$ 0,80. Essa duplicidade fez com que muitos cubanos - entre eles, advogados, engenheiros e médicos - buscassem alternativas de remuneração na indústria do turismo, a principal fonte de divisas do país.Um médico, por exemplo, que ganha 500 pesos nacionais (US$ 20) por mês em sua atividade, poderia ganhar esse mesmo valor de gorjetas em um único dia trabalhando como carregador de malas de um hotel.A razão para a descrença dos cubanos em mudanças reais a partir da eleição de hoje reside no fato de o chamado núcleo duro do partido ter permanecido imutável e monolítico há décadas. Pérez Roque, que apesar de jovem já integra o establishment do regime há mais de dez anos, foi o último "quadro" a emergir com algum destaque no PC. Os personagens conhecidos como a "jovem guarda do regime" - entre os quais se incluem Lage e Pérez Roque - têm convicções políticas e econômicas tão ortodoxas quanto a do próprio Fidel.Outro ponto que leva ao desânimo aqueles que torcem por mudanças é a constatação de que Fidel renunciou ao cargo de presidente, mas não abandonou o governo. Eleito deputado em janeiro, é bem provável que ele seja escolhido hoje como um dos 31 membros do Conselho de Estado. "Basicamente, o que os cubanos querem é ganhar mais dinheiro", afirma José Luis Alonso, professor da Escola de Economia e Administração de Havana. "Como o país está sufocado por um bloqueio (americano) há quatro décadas, não há como o Estado atender a essa aspiração. E se não podem ganhar dinheiro do Estado, resta aos cubanos ganhar dinheiro prestando serviço para os turistas, que trazem moeda forte para o país."FONTE DE DIVISASAberto pelo regime em princípios dos anos 90 para preencher o déficit causado pelo colapso da União Soviética - que, a preços camaradas, supria a ilha de petróleo e de produtos industrializados -, o setor de turismo é a principal fonte de divisas de Cuba. Em segundo lugar, vêm as remessas de dólares que os cubanos residentes nos EUA enviam para os parentes que permaneceram na ilha.O embargo comercial que Washington impõe a Cuba serve, desde os anos 60, como pretexto para que o regime acoberte a ineficiência econômica do modelo. Submetida a anos de atraso tecnológico, a produção de açúcar - principal produto de exportação cubano - está em queda livre nas fazendas coletivas.A infra-estrutura do país está sucateada. Portos e estradas estão em más condições. Sem acesso ao cabo submarino que interliga os EUA aos demais países da América Latina, todo o sistema de telecomunicações depende de satélites - tornando-o caro e ruim. A assinatura de um serviço de conexão de banda larga à internet chega a custar o equivalente a US$ 900 mensais.

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