Cuba conta com Dilma para reduzir isolamento

De Davos, presidente vai a Havana de olho em abertura econômica e integração regional

Vera Rosa, Enviada especial - O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2014 | 02h07

HAVANA - Depois de vender oportunidades ao capital estrangeiro no Fórum Econômico Mundial, em Davos, a presidente Dilma Rousseff desembarca hoje em Havana disposta a ajudar o colega Raúl Castro a romper o isolamento de Cuba.

Munida de um discurso em defesa do "crescimento solidário" na América Latina e no Caribe, Dilma condenará o embargo imposto pelos Estados Unidos e indicará que o Brasil tem interesse na abertura econômica da ilha dos irmãos Castro. A estratégia vem na esteira do esforço promovido por Havana para atrair investimentos, principalmente em projetos de infraestrutura e turismo. Nesse cenário, a visita de Dilma se reveste de significado político especial num momento em que Cuba é anfitriã da II Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

De país excluído da Cúpula das Américas à presidência da Celac, a ilha quer mostrar que deu a volta por cima. Com essa credencial, Raúl Castro pretende transformar o encontro em cartão de visitas para apresentar um país que, mesmo seguindo a cartilha do comunismo, começa a olhar para o mercado e ampliar seus negócios fora do setor estatal.

Desde que Raúl assumiu o poder, em 2008, substituindo seu irmão Fidel, várias mudanças foram adotadas para enfrentar o cenário adverso e sair da estagnação econômica. Chamadas pelo governo de "atualização do modelo", as reformas ganharam força nos últimos meses e deram nova fisionomia a Havana.

A privatização dos serviços de táxis foi a mais recente medida de uma lista que inclui incentivo a pequenos negócios, unificação da moeda, flexibilização das regras internas para viagens e fim das restrições para que cubanos comprem carros.

O pragmatismo, porém, não evita ferrenhas críticas aos EUA. Ao contrário: sob o tema do combate à pobreza, a Celac vai reunir chefes de Estado e de governo de 33 países que aprovarão declaração de apoio a Cuba, contra o bloqueio americano.

A cúpula também marcará o reencontro da Organização dos Estados Americanos com Cuba, já que o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, confirmou presença na Celac.

Apesar da importância dada pelo Itamaraty a essa cúpula, não foi apenas a participação de Dilma na abertura da reunião, na terça-feira, que motivou sua ida a Havana.

Porto. Ao lado de Raúl, a presidente vai inaugurar amanhã a primeira etapa do Porto de Mariel, situado a 45 quilômetros da capital. Dilma terá, ainda, uma conversa reservada com Raúl.

Além de agradecer o apoio ao Mais Médicos, ela vai acertar com o colega detalhes da ampliação do programa. Cuba enviou 5.378 médicos ao Brasil, no ano passado, e deve despachar outros 5 mil até março.

As relações entre os dois países têm rendido frutos desde o governo Lula, com críticas da oposição. Nesta visita, Dilma destacará a necessidade da construção de uma ampla infraestrutura energética e logística para a prosperidade da região.

O Brasil é um dos principais investidores de Mariel. O megaprojeto tem custo estimado de US$ 900 milhões, dos quais US$ 682 milhões foram financiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Quem toca a obra é a empreiteira Odebrecht.

O porto fica em posição estratégica, de frente para a Flórida, nos EUA. Em Mariel será instalada a primeira Zona de Desenvolvimento Especial, como na China, com 265 quilômetros quadrados.

Trata-se do maior investimento privado em Cuba, desde a Revolução Comunista de 1959. Até agora, empresas do Brasil, da Espanha, da França e da Itália manifestaram interesse na produção de bens na região.

De 2006 até o ano passado, o saldo do intercâmbio bilateral entre Brasil e Cuba saltou de US$ 375,4 milhões para US$ 624,8 milhões, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Na lista dos principais produtos exportados à ilha, no ano passado, estão óleo de soja refinado, arroz e milho. O Brasil compra de Cuba extratos de glândulas para medicamentos, produtos imunológicos, charutos, cigarrilhas e cimento portland. Agora, o regime dos irmãos Castro aposta nos investimentos em Mariel para ultrapassar fronteiras e sair do isolamento.

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