Cuba diminui e envelhece

Desafios demográficos são as principais dificuldades para desenvolvimento da ilha dos irmãos Castro

O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h07

Artigo

Entre os desafios mais sérios e preocupantes que a sociedade cubana enfrenta estão os de caráter demográfico. O baixo crescimento populacional que há tempo vinha se verificando, já acusa taxas negativas. No período entre 2006-2010, a população decresceu, com exceção de 2009.

Assim, no fim de 2010, houve uma diminuição de 2.675 habitantes em relação aos que, segundo se estimava, residiam em Cuba em 31 de dezembro de 2005. Com esse fenômeno, desenvolve-se um processo acelerado de envelhecimento que converteu Cuba no país do continente com a maior quantidade relativa da população com 60 anos ou mais.

Uma diminuição da população só havia ocorrido em duas ocasiões na história demográfica cubana: em fins do século 19, como consequência da devastação resultante da guerra de independência, a reconcentração de Weyler e o regresso à Espanha de numerosas pessoas depois da derrota do colonialismo, e em 1980 em razão da saída de cerca de 125 mil pessoas pelo Porto de Mariel para os EUA, fator determinante para que houvesse, nesse ano, uma queda populacional.

As origens do processo atual de decréscimo remontam à brusca queda da natalidade e o contínuo abandono definitivo do país por quantidades importantes de cidadãos, em especial jovens, apesar dos consideráveis obstáculos oficiais para fazê-lo. Essa dinâmica foi atenuada pelas altas taxas de expectativa de vida - 79,1 anos em 2011, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

A natalidade alcançou 30,1 para cada mil habitantes em 1960, com uma elevação a 35,1 em 1963, mas depois de uma prolongada tendência à diminuição, chegou a 10,7 como média em 2005-2010, segundo dados do Escritório Nacional de Estatísticas (ONE), para uma queda de 65% com relação a 1960.

Esse processo contribuiu para um aumento acelerado das pessoas com 60 anos ou mais. Se em 1990 elas eram 12,1% da população, em 2010 eram 17,8%.

A isso se soma um importante fator que influi na diminuição populacional: o fluxo permanente, sem retorno, de cubanos para o exterior, apesar das restrições existentes. No período 2011-2010, o saldo migratório negativo alcançou 341.199 pessoas.

As perspectivas de que essa situação demográfica lamentável possa se modificar no sentido positivo são improváveis, se não forem adotadas medidas para favorecer o aumento da natalidade e diminuir o desejo dos cubanos de ir embora do país.

Esses objetivos não serão concretizados a menos que se realizem transformações econômicas, sociais e políticas que criem um ambiente de confiança no futuro de Cuba. De toda maneira, as tendências demográficas imperantes terão efeitos no crescimento e na estrutura da população nas próximas décadas.

Previsões. Isso foi demonstrado em um estudo realizado pelo ONE em meados de 2011 e intitulado Proyecciones de la población cubana 2011-2035 (Projeções da população cubana 2011-2035), que tomou como referência 2009 e trabalhou as hipóteses para períodos quinquenais.

Segundo esse documento amplo, em 2035 o número de habitantes terá uma redução de 478.544 dos 11.232.144 existentes em meados de 2011. Prevê-se que Cuba terá 10.753.600 habitantes daqui a 23 anos, com 34% das pessoas com 60 anos ou mais, enquanto o número de mulheres em idade fértil (15-49 anos) será reduzido em 827.296.

Do ponto de vista econômico, os desafios colocados pela diminuição e o envelhecimento crescente da população são colossais.

No Japão e outros países desenvolvidos existem situações similares que foram enfrentadas com altos crescimentos da produtividade do trabalho, compensando relativamente a diminuição da população economicamente ativa. No entanto, por serem sociedades com níveis de vida elevados, elas abriram suas fronteiras à imigração para mitigar a carência de força de trabalho. A sociedade cubana não tem essa possibilidade.

Esses fatores negativos, juntamente com outros, como a carência aguda de moradias, estão na gênese das preocupantes perspectivas demográficas de Cuba e sem um encaminhamento correto das mesmas será impossível encontrar solução para a diminuição e o acelerado envelhecimento populacional.

De mais a mais, a carga econômica representada pelo aumento da quantidade de pessoas na terceira idade será cada dia mais difícil de suportar. Os gastos criados pelo paulatino envelhecimento populacional não serão somente os requeridos pelo sistema de pensões, mas também os necessários para o atendimento à saúde, assim como à alimentação especial, adaptação dos caminhos e uma ampla gama de produtos e serviços que esse setor etário requer.

O problema demográfico de Cuba é altamente preocupante e de solução muito difícil. Para que não continue se agravando, o único caminho possível é o início de reformas estruturais e de concepções reais que conduzam a uma reconstrução do país e ao resgate da esperança e um destino nacional melhor que freie o êxodo maciço da população e motive as famílias a se reproduzir num ambiente de progresso e confiança no futuro.

Até que se consiga isso, a situação continuará piorando em termos demográficos. Uma verdadeira bomba-relógio, com consequências imprevisíveis. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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