Rodrigo Cavalheiro/AE
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Cuba distribui terra, mas precariedade agrava falta de comida

Sucateamento no campo acelera cortes de produtos subsidiados pelo governo

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial a Guantánamo, Cuba, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2011 | 03h05

GUANTÁNAMO, CUBA - Falta água aos pés de cana da região de Guantánamo, extremo leste de Cuba. Quem conta é Domingo Valiente, agricultor de 60 anos que dedicou 41 deles aos canaviais. Ele trabalhou em todas etapas do cultivo, sendo uma década na mais dura, o corte. Embora tenha visto o tamanho dos pés e a área plantada minguarem, Valiente confessa: não imaginou que um dia faltaria açúcar em sua mesa.

 

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Há relação entre a escassez de açúcar na mesa e a de água na lavoura. E não é que chova menos nos arredores de Guantánamo. "Havia mais bombas para trazer água da barragem. Só aqui na vila, tínhamos seis tratores. Aquela época é que era boa", explica com a voz e a cabeça baixas, enquanto ajeita o boné (o chapéu de abas brancas, típico dos guajiros, está rasgado).

 

Época 'boa'

 

Valiente começou em 1970 a lidar com os canaviais da Vila de Santa Marta, a 10 km da cidade de Guantánamo e a 5 km da base militar americana. Foi justamente a época "boa" a que se refere. Ele lembra que a falta de máquinas começou com o fim do "período especial", como os cubanos chamam a época em que contavam com o apadrinhamento da União Soviética - Cuba tinha 156 usinas de açúcar em 1990, hoje são 42.

A partir de então, os efeitos do bloqueio americano - instituído em 1967 e convertido em lei nos Estados Unidos em 1992 - passaram a ser mais sentidos. O sepultamento do Ministério do Açúcar veio no Diário Oficial de sexta-feira, depois do anúncio de sua extinção em setembro.

Valiente trabalha hoje em dois turnos: das 7h às 11h e das 14h às 16h30. O intervalo para almoço o incomoda. Sente falta de comer no canavial. "Ganhávamos tempo", diz, insinuando que havia mais trabalho. Valiente monitora o crescimento das plantas e lamenta quando elas não superam seu 1,75m de altura. Os pés semeados em janeiro estão perto da colheita. Os plantados em setembro ainda batem na altura do rasgão que ele leva perto do joelho, na perna direita da calça.

Ao falar da produtividade da última safra, Valiente sorri pela primeira vez em uma hora de conversa. Foram 34 toneladas por hectare, 4 toneladas a mais que a anterior. Ignora que ambas estão abaixo da metade da média mundial - de 70,9 toneladas por hectare. A brasileira chega a 80.

'Níveis de 1895'

 

"A falta de infraestrutura reflete-se em todas as áreas da agricultura", diz o economista Oscar Espinosa. "A produção de açúcar caiu aos níveis de 1895. É de apenas 10,9% do que era em 1989. Quando há alguma pequena flutuação no mercado, é preciso importar açúcar. Costumo olhar os pacotes e já vi açúcar brasileiro. Até que é bom", completa.

Segundo o governo, Cuba tem 6,6 milhões de hectares de terras agrícolas. Em 2007, apenas a metade era cultivada. Em 2008, Raúl Castro começou a entrega de 1,3 milhão de hectares de propriedade estatal ociosos em usufruto aos agricultores. A medida não teve o impacto esperado.

Trabalhadores como Valiente, prestes a se aposentar, com um salário de US$ 10 ao mês, não acharam conveniente deixar o abrigo do Estado para assumir uma terra coberta por pragas, sem maquinário adequado e com restrições ao uso pleno do terreno. Para ele, a época em que Cuba e a cana eram sinônimos não tem mais volta. Dois de seus três filhos foram para Havana, longe dos canaviais.

Ajuda

 

Valiente recebe do governo, como parte da "libreta" de alimentos, quase dois quilos do produto por mês, um quarto dos quais é refinado. "Dá para 20 dias. Quando sobra dinheiro, compro mais", conta. Quase nunca sobra, e o açúcar não é prioridade.

 

Ele acende outro cigarro e sorri pela segunda vez quando questionado sobre o vício. "Preciso parar com eles". Saúde? "Não, dói no bolso mesmo", diz o guajiro guantanamero. Assim são conhecidos os agricultores que resistem na região.

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