AP Photo/Desmond Boylan
AP Photo/Desmond Boylan

Cuba diz que decisão americana de tirar diplomatas do país é precipitada

Havana alerta que medida deve prejudicar as relações bilaterais, retomadas no governo do presidente Barack Obama

O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2017 | 15h37

HAVANA - A chancelaria cubana classificou a decisão dos Estados Unidos de reduzir mais da metade de seu pessoal na embaixada em Havana como precipitada e alertou que isso prejudicará as relações bilaterais entre os dois países, retomadas há dois anos. O anúncio foi feito pela chefe de assuntos para os Estados Unidos do Ministério de Relações Exteriores, Josefina Vidal, na TV estatal. 

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O governo americano decidiu tirar parte de seus diplomatas da representação após alguns de seus funcionários terem perdido parte da audição em razão de supostos ataques sônicos. 

Os ataques, realizados com uma tecnologia não identificada,  provocaram perda de audição e/ou equilíbrio, náusea, problemas cognitivos, dificuldade para dormir e dores de cabeça a ao menos 21 membros do Departamento de Estado em Havana. 

Os incidentes começaram no fim de 2016 e o mais recente deles foi registrado em agosto. Todos ocorreram em hotéis e não na embaixada. Suspeitava-se inicialmente do uso de armas sônicas na ação. Outra possibilidade analisada é a utilização de equipamentos de espionagem.

Na semana passada, na Assembleia-Geral da ONU,  presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o regime de Cuba é "corrupto e desestabilizador" e reiterou que não irá retirar o embargo econômico se não houver reformas na ilha. "Não levantaremos as sanções ao governo cubano até que haja reformas fundamentais",  disse Trump na ocasião. 

Em julho, em um discurso em Miami, Trump anunciou o "cancelamento" da política de seu antecessor, Barack Obama, para Cuba. O ex-presidente promoveu uma aproximação com o regime de Raúl Castro e normalizou as relações bilaterais entre os dois países, o que propiciou a abertura de embaixadas em Washington e Havana.

As principais mudanças ordenadas por Trump são uma proibição para que as empresas dos EUA façam negócios com companhias cubanas de propriedade ou controladas pelas Forças Armadas Revolucionárias de Cuba e a restrição das viagens de cidadãos americanos à ilha. "Faremos o embargo ser cumprido", disse  Trump na época.

Pretexto

Para o cientista político Ben Hoffman, do Instituto de Estudos Globais de Hamburgo, na Alemanha, a decisão do governo americano pode ter sido motivada pelo desejo de buscar uma política mais dura contra Cuba, como anunciado em Miami e no discurso na ONU. “Esse incidente para ser um pretexto para endurecer a política para Cuba”, disse. 

Ainda de acordo com Hoffman, as restrições de visto provocadas pelo anúncio desta manhã podem colocar em dúvida o acordo de migração assinado entre os dois países na década de 90, segundo o qual os Estados Unidos concedem 20 mil vistos por ano em troca da repressão à imigração ilegal em Cuba. 

Engage Cuba, um grupo de lobby pró-Cuba com base em Washington disse que o corte de pessoal é indecifrável, uma vez que turistas não foram alvos dos ataques sônicos. Interromper a concessão de vistos, segundo o grupo, dividiria famílias e prejudicaria o nascente setor privado na ilha. 

O senador democrata Patrick Leahy, que defende a aproximação com Havana, pediu que a medida seja anulada. “Precisamos fazer o que esteja a nosso alcance para resolver esse mistério e nosso pessoal retorne em segurança o mais rápido possível”, disse. 

O senador republicano Marco Rubio, que representa a comunidade cubana em Havana, pediu medidas mais durad contra o governo cubano. “Até que os responsáveis sejam julgados, os Estados Unidos devem expulsar o mesmo número de diplomatas cubanos e reduzir suas operações na embaixada”, disse.  / REUTERS e EFE

 

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