REUTERS/Stringer
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Cuba endurece discurso contra EUA e diminui ritmo de reformas

Mesmo com reaproximação diplomática, funcionários do governo estão recuperando a antiga retórica de atacar os americanos e suas intenções ‘intervencionistas’ na ilha

O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2016 | 15h34

HAVANA - A Cuba da reaproximação e da abertura política vive um retorno sutil ao passado com uma intensificação do discurso revolucionário, especialmente contra os EUA, e o bloqueio a algumas reformas econômicas com as quais o governo de Raúl Castro está mudando o panorama da ilha.

Proprietários de restaurantes que não são públicos, o negócio mais bem-sucedido do "cuentapropismo", como são chamados os empreendedores e pequenos empresários cubanos, não escondem a preocupação com a suspensão temporária da concessão de licenças para a abertura de novas lojas, uma medida que ainda não foi divulgada oficialmente. Em toda a ilha existem mais 1,7 mil restaurantes, um negócio particular que teve grande ampliação nos últimos anos graças ao aumento do turismo, embora com grandes dificuldades e restrições legais.

Estes locais enfrentam agora uma onda de severas inspeções para garantir o rígido cumprimento da norma: não ter mais do que 50 lugares, respeitar horários e ser abastecido somente por produtos adquiridos em lojas do Estado, cuja oferta é insuficiente e intermitente.

Embora a medida seja temporária, nas ruas muita gente teme que isso signifique o início de um retrocesso nos avanços dos últimos anos, entre eles o "cuentapropismo", que modificou o cenário econômico da ilha e deu lugar a uma pequena classe empreendedora que promete ser o motor do desenvolvimento do país.

O retorno ao passado também é apreciado no plano mais ideológico e é cada vez mais frequente ver altos funcionários do governo recuperando a velha retórica para arremeter duramente contra os EUA e suas intenções "intervencionistas" em Cuba, apesar da aproximação diplomática iniciada há quase dois anos.

Analistas políticos apontam as fortes reservas dos setores mais radicais dentro do Partido Comunista, que veem com receio a nova relação com os EUA e que estão marcando a pauta ideológica na ilha, onde as estruturas de poder são controladas por esse partido único. Um exemplo da nova tendência mais beligerante é a campanha "Vespeiro contra o bloqueio", uma mobilização em massa e insólita de milhares de jovens estudantes em todas as universidades do país para pedir o fim do embargo, que foi amplamente repercutida na imprensa oficial cubana.

Apesar de o evento ter sido convocado por organizações governistas da sociedade civil, ele contou com a presença da diretora-geral dos EUA no Ministério das Relações Exteriores de Cuba, Josefina Vidal, que fez na quinta-feira uma forte alegação contra esse antigo inimigo e centrou seu discurso nas questões pendentes da nova relação.

A iniciativa acontece uma semana antes de Cuba apresentar sua proposta de resolução contra o bloqueio na Assembleia Nacional da ONU, algo que no passado veio acompanhado de uma campanha na imprensa - quase toda controlada pelo Estado -, mas que este ano foi muito mais intensa e agressiva. As mensagens conciliadoras e cautelosas dos primeiros meses do degelo do discurso oficial cubano se tingem agora de um tom muito mais duro para os EUA, apesar de o presidente americano Barack Obama declarar há poucos dias "irreversível" o processo e relaxar novas sanções econômicas do embargo.

Para Josefina, a medida não esconde os propósitos dos EUA de promover mudanças internas na ilha, mas admite que a administração Obama já reconhece o governo cubano como um interlocutor legítimo e igual.

Há poucas semanas, a Chancelaria expressou também seu mal-estar com os americanos sobre o programa educativo "World Learning", lançado com "fins subversivos" pela embaixada americana na ilha em paralelo aos canais diplomáticos estabelecidos.

Apesar da retirada ideológica, Cuba mantém fortes contatos com os EUA, encaminhados a estreitar a cooperação em áreas como saúde e meio ambiente, e a estabelecer os fundamentos para uma futura relação comercial sólida perante a eventual suspensão do embargo que a ilha reivindica agora com mais ímpeto e veemência. / EFE

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