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Cuba híbrida

Fidel Castro, líder da Revolução Cubana, sobreviveu a nove presidentes americanos, tentativas de assassinato e de tirá-lo do poder, isolamento diplomático e sucessivos embargos econômicos

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

13 Agosto 2016 | 05h00

Fidel Castro tinha 27 anos quando liderou com o irmão Raúl uma tentativa fracassada de tomar o quartel de Moncada, em Santiago de Cuba, para roubar as armas e distribuí-las à população, em 26 de julho de 1953. Era o embrião da Revolução Cubana. Fidel foi capturado e, ao fazer a própria defesa em seu julgamento, sustentou que a queda do general Fulgencio Batista era necessária para melhorar as condições de vida na ilha. “A história me absolverá”, disse.

Fidel foi solto dois anos depois, graças a um acordo que deu anistia aos presos políticos. Libertado, viajou com Raúl para o México, onde conheceu o jovem médico argentino Ernesto (Che) Guevara. Juntos, eles organizaram os cubanos no exílio para a guerrilha que derrubaria Batista em 1959 – e, assim, começou a escrever a história que, acreditava Fidel, o absolveria.

O líder da Revolução Cubana sobreviveu a nove presidentes americanos, tentativas de assassinato e de tirá-lo do poder (a mais famosa, a invasão da Baía dos Porcos orquestrada pela CIA, em 1961), isolamento diplomático e sucessivos embargos econômicos, que duram mais de cinco décadas com perdas estimadas em US$ 1,126 trilhão. Mas, hoje, quando Fidel completa 90 anos, seu legado permanece em aberto.

Fidel sobreviveu ao colapso da União Soviética, que durante 30 anos foi responsável por 80% das importações e exportações da ilha. Atravessou o dramático “período especial” nos anos 90, quando a produção caiu 34% e os cubanos começaram a sentir o impacto nos serviços públicos e a viver racionamento de energia e alimentos. 

Viu movimentos revolucionários que ajudou a financiar naufragarem, a esquerda ruir na América Latina e o colapso da Venezuela, que viera em seu socorro após o colapso soviético.

Quando transferiu o poder para o irmão Raúl, Cuba acumulava déficit de US$ 6,5 bilhões. Em 2009, os americanos previam que a economia cubana não sobreviveria além de mais três anos, de acordo com telegramas diplomáticos vazados pelo WikiLeaks.

Talvez Fidel tenha vivido além de seu tempo. Para quem pretendia ser absolvido pela história, isso pode ser um problema.

Entre o herói anti-imperialista e a figura envelhecida que reapareceu em público no dia 19 de abril, durante o Congresso do Partido Comunista, louvando a Revolução Russa de 1917, existe quase um século de mudanças profundas e novas revoluções.

Talvez a mais importante delas tenha sido a revolução tecnológica. Ela permitiu que pessoas sob regimes ditatoriais, com liberdade limitada de imprensa, passassem a ter acesso, pela primeira vez, a tudo o que acontecia no mundo – e a ter uma ideia mais clara sobre tudo o que estavam perdendo. Foi a revolução tecnológica que impulsionou milhões de jovens às ruas pedindo por liberdade e prosperidade no que ficou conhecida como Primavera Árabe.

É essa revolução que os cubanos vivem agora, com a entrada da internet, redes sociais e smartphones, no rastro de medidas tomadas na última década pelo regime, sob comando de Raúl Castro, para responder à frustração dos cubanos, o que lhes garantiu algum respiro em termos de liberdades individuais, e para salvar a ilha do colapso – a mais recente, a reaproximação com os EUA, embora o fim do embargo ainda dependa de aprovação do Congresso americano.

Do lado cubano, Raúl foi reeleito para um novo mandato de cinco anos como primeiro-secretário do Partido Comunista, o que significa que permanecerá no comando do país, mesmo se deixar a presidência em 2018, como prometera.

“O futuro de Cuba envolverá uma crescente quantidade de capitalismo, como parte de um sistema socialista cada vez mais híbrido”, escreveu Jon Lee Anderson, da New Yorker, biógrafo de Che Guevara. “Mas a autoridade final continuará, como sempre, firme em mãos comunistas.”

A internet chegou ao país em julho de 2015 – para muitos, era a primeira vez que tinham acesso ao mundo além das margens da ilha, desde 1959. Uma cena comum hoje em Cuba é ver grupos de jovens reunidos em praças públicas onde há Wi-Fi, sob velhos outdoors de Fidel e Che Guevara, mas os olhos fixos no universo que se apresenta pela tela do celular. É uma juventude menos interessada em política, e mais em liberdade e prosperidade. 

Com acesso maior à informação, é possível que se tornem cada vez mais frustrados com a lentidão das mudanças que almejam. Fidel permanece como símbolo da resistência cubana, querido e admirado pelos cubanos que atravessaram sua era, mas as novas gerações querem tomar as rédeas de seu próprio tempo. Não se trata de negar a história, mas de permitir que ela siga seu curso.

Twitter: @AdrianaCarranca

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