Javier Galeano/AP - 07.08.2010
Javier Galeano/AP - 07.08.2010

Cuba liberta dois últimos presos políticos da 'primavera negra' de 2003

União Europeia e grupos de oposição celebram medida do governo da ilha

estadão.com.br,

23 de março de 2011 | 11h58

O governo cubano libertou nesta quarta-feira, 23, os dois últimos presos políticos do "grupo dos 75", detidos em março de 2003. Com isto, não há mais prisioneiros de consciência na ilha, segundo a Anistia Internacional. Já de acordo com o grupo oposicionista das "Damas de Blanco", restam mais de 70 presos políticos em Cuba.

 

Félix Navarro e José Ferrer, que tinham sido condenados a 25 anos de prisão, já estão em casa. "Meu pai chegou nesta manhã e já foi visitar minha avó. Está bem, otimista e feliz, disposto a continuar o que deixou para trás em 2003", disse a filha de Navarro, Sayli.

 

Com essas libertações termina o processo de soltura de presos condenados na onda repressiva da "Primavera Negra" de 2003 - que o governo de Raúl Castro iniciou em julho passado com a mediação da Igreja Católica e o apoio da Espanha.

 

Ao longo dos nove meses do processo de libertação, foram soltos 52 membros do grupo de 75 inicialmente preso. Quarenta deles foram para o exílio, a maioria na Espanha, e 12 permanecem em Cuba, com "licença extra penal".

 

"Não estamos livres, nossa condenação arbitrária continua de pé", disse Ferrer, sobre a licença nesta quarta, ao ser libertado em Santiago de Cuba. Ele é membro do movimento cristão de oposição Liberación e ressaltou que, apesar da pressão que "obrigou" o governo a libertar o "grupo dos 75", ainda não aconteceram mudanças políticas na ilha e, por isso, a oposição pacífica deve "manter-se unida e seguir lutando".

 

As negociações começaram após Raúl ter sido alvo de críticas da comunidade internacional pela morte do dissidente Orlando Zapata, no ano passado. A União Europeia comemorou nesta quarta-feira a notícia da libertação dos últimos dois membros do "grupo dos 75". A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, destacou a atuação da Igreja Católica cubana e do governo espanhol.

 

Grupos dissidentes também saudaram o fim do maior processo de soltura de presos políticos em Cuba, mas ressaltam que a medida não é sinônimo de que hajam mudanças significativas no campo dos direitos humanos e políticos na ilha.

 

Para Lembrar: 'A Primavera Negra'

 

A prisão de 75 opositores em março de 2003 foi a maior e última ação do governo de Fidel Castro, então presidente de Cuba. A "primavera negra" deteve ativistas de oposição - entre eles apenas uma mulher - entre 18 e 20 de março, e um mês depois, eles foram condenados a penas de 6 a 28, acusados de "servir a uma potência estrangeira" para desestabilizar a revolução socialista.

 

Por motivos de saúde, cerca de 20 prisioneiros foram liberados nos anos seguintes, como o poeta Raul Rivero, que emigrou para a Espanha, e o economista Oscar Espinosa y Roque, que ficou na ilha.

 

O inédito diálogo entre o cardeal Jaime Ortega, líder da Igreja Católica cubana, e o presidente Raul Castro (que substituiu em 2006 seu irmão Fidel), em maio de 2010 - com apoio de Madri - , deu início em julho à libertação de 52 dos 75 que presos.

 

O caso do "grupo dos 75" e o fuzilamento de três homens que sequestraram uma lancha para emigrar para os Estados Unidos em abril de 2003 provocaram revolta da comunidade internacional e geraram tensões na relação de Cuba com a União Europeia.

 

Fidel Castro alegou à época que as ações eram uma resposta ao aumento da "atividade subversiva". A União Europeia cancelou visitas oficiais, colaboração cultural e convidou opositores a suas embaixadas; Cuba rechaçou qualquer ajuda do bloco.

*atualizado às 15h45

Com Efe

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