AP Photo/Desmond Boylan
AP Photo/Desmond Boylan

Cuba marcha em 1º de Maio, o último de Raúl Castro no poder

Milhares de pessoas foram às ruas do país proclamar lealdade ao socialismo e apoio ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro; em Havana, homem foi detido após invadir a marcha com uma bandeira dos Estados Unidos

O Estado de S.Paulo

01 Maio 2017 | 13h34

HAVANA - Milhões de cubanos marcharam neste 1º de Maio, o último com Raúl Castro à frente do governo, para proclamar lealdade ao socialismo e em apoio ao presidente venezuelano Nicolás Maduro, cada vez mais encurralado pelos violentos protestos na seu país.

Com 85 anos e pouco mais de uma década no poder, Raúl presidiu o tradicional desfile dos trabalhadores em Havana em seu uniforme de general, embora não tenha se dirigido à multidão.

O presidente cederá o comando do país em fevereiro de 2018, depois de impulsionar uma cautelosa e lenta abertura ao mercado e restabelecer relações com os Estados Unidos, o inimigo histórico da Guerra Fria.

Ainda que siga à frente do Partido Comunista de Cuba - o único legal neste país de 11,2 milhões de habitantes -, sua substituição significará, teoricamente, o fim de um ciclo de quase seis décadas no qual os cubanos só conheceram dois governantes: Fidel e Raúl Castro, os irmãos que triunfaram com a Revolução de 1959.

"Não acredito que os cubanos estejam preparados para aceitar outros presidente. O povo o receberá com receio até que demonstre sua capacidade", afirmou Mariana González, uma economista de 28 que participou da marcha.

Por todo o país o histórico líder cubano, falecido em novembro de 2016, foi lembrado com cartazes e lemas aludindo ao seu legado.

Durante a mobilização em Havana, um homem foi detido pelo agentes de segurança civil depois de invadir a marcha com uma bandeira dos Estados Unidos. As autoridades, no entanto, não comentaram o episódio.

Substituição incerta. O tradicional ato foi o último liderado por Raúl Castro como chefe de Estado. Ninguém sabe ao certo quem será seu sucessor, enquanto os cubanos lidam com a recessão econômica desencadeada pela crise venezuelana.

Em 2016, o PIB contraiu 0,9% e o governo parece ter congelado a reforma iniciada em 2008, que permitiu um crescimento tímido do setor privado e a chegada de investimentos estrangeiros a conta-gotas.

Castro está à frente do regime de partido único do qual sairá seu sucessor, em um complexo processo de eleição que começará em novembro.

"A incerteza para 2018 é muito alta. Uma pessoa pode esperar um processo de continuidade, mas não com a mesma velocidade com a qual as mudanças vieram, porque isso não deu resultados", indicou Pavel Vidal, ex-funcionário do Banco Central de Cuba e acadêmico da Universidade Javeriana da Colômbia.

Aos 56 anos, o vice-presidente do Conselho de Estado Miguel Díaz-Canel - que acompanhou nesta segunda-feira Castro no palco - é a principal aposta para tomar as rédeas do poder. Formado dentro do Partido Comunista, tem experiência ministerial, embora careça de influência dentro das Forças Armadas, um ator chave na transição.

Assim, analistas como o cubano Arturo López-Levy, autor do livro "Raul Castro and the New Cuba: A Close-Up View of Change", acreditam que o atual presidente seguirá influenciando no destino da ilha. "Enquanto permanecer como primeiro-secretário do Partido, e com capacidades físicas para a supervisão, será um fator de primeira importância", disse.

Entre os cubanos, porém, a sensação é que o país continuará no rumo traçado pelos irmãos Castro. "Não há ninguém capaz de derrubar Cuba. Mesmo que Fidel não esteja mais (entre nós), Raúl está aqui e quem o suceder também estará", disse Alejandro Matos, de 35 anos, funcionário da Defesa Civil.  

Apoio ao aliado. Diferentemente de outros países, onde o dia 1º de Maio é motivo de reivindicações trabalhistas e confrontos com a polícia, em Cuba há manifestações em apoio ao governo. O Estado emprega quase 70% dos quase cinco milhões de trabalhadores.

Nesta ocasião também foi ouvida com força uma mensagem de apoio a Maduro, o maior aliado da ilha, que enfrenta uma severa crise econômica e protestos que deixaram 28 mortos em um mês.

"Expressamos nosso tradicional apoio e solidariedade à revolução bolivariana. Rejeitamos a manobra política e a perseguição diplomática à qual tentam submetê-lo", disse Ulises Guilarte, membro do burô político e líder máximo da Central de Trabalhadores de Cuba.

O destino de Maduro, cuja saída do poder é exigida pelos manifestantes, afetará fortemente o futuro econômico de Cuba, que mantém um tratamento privilegiado com a Venezuela para o fornecimento de petróleo.

Especialistas dizem, no entanto, que Havana não poder fazer muito mais por Maduro e já vem tomando medidas preventivas para o caso de sua eventual saída. "A Venezuela reduziu sua exportação de petróleo para a ilha em 50% e Cuba está negociando novos contratos com outros países, como Angola e Argélia", disse Andrew Otazo, diretor do Cuba Study Group, com sede em Washington. / AFP

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