Cuba promete libertar todos os presos que não tiverem 'sangue nas mãos'

Presidente da Assembleia cubana diz, na sede da ONU, que libertações não se restringirão ao grupo de 52 dissidentes detidos na onda repressiva de 2003, mas se estenderão a todos que não tenham cometido crimes de sangue e pelos quais a Igreja interceda

Jamil Chade, correspondente em Genebra, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2010 | 00h00

Cuba está disposta a libertar mais presos políticos do que os 52 anunciados há uma semana. A garantia foi dada ontem, em Genebra, pelo presidente da Assembleia Nacional de Cuba, Ricardo Alarcón, um dos principais nomes da diplomacia cubana, após reuniões com funcionários da ONU.

Alarcón impôs, porém, duas condições: os presos não podem ter cometido "crimes de sangue" e a Igreja Católica é quem tem de solicitar suas libertações. Há dois dias, ele já havia prometido que todos os 52 presos políticos seriam soltos. Mas, em entrevista ao Estado, ele fez questão de dizer que as pessoas recentemente libertadas não eram "dissidentes", mas "criminosos".

Ontem, ele disse que "a vontade do governo cubano é tirar todos da prisão", exceto aqueles que cometeram crimes comuns. "A condição para a libertação é a de que não pesem sobre eles a responsabilidade pela vida de outras pessoas", afirmou o presidente do Parlamento cubano.

Críticas. A promessa foi feita na sede da ONU, em Genebra, um dia depois que o secretário-geral da organização, Ban Ki-moon, pedisse que Havana tomasse "novas medidas de reconciliação" e afirmasse que a liberação dos 52 presos "não havia sido suficiente".

Os 52 presos fazem parte de um grupo de 75 pessoas detidas em 2003 durante uma onda de repressão chamada de Primavera Negra. Encarcerados por atos contra o governo cubano, alguns opositores receberam penas de até 28 anos de prisão. Antes do anúncio da libertação dos 52 presos, outros 23 já haviam sido soltos por problemas de saúde. As libertações foram anunciadas após protestos das Damas de Branco - mulheres e parentes dos presos políticos -, da morte de Orlando Zapata, após 85 dias de greve de fome, e em meio à greve de Guillermo Fariñas.

A Comissão Cubana de Direitos Humanos afirma que, além dos 52, Cuba mantém outros 115 presos políticos. Alarcón nega e critica aquilo que classifica de "exagero". "Não reconhecemos esses números", disse.

Ontem, ele voltou a afirmar que muitos presos incluídos nessas estatísticas cometeram crimes de sangue. "Se essas pessoas cometessem, em países europeus, os mesmos crimes que cometeram em Cuba, seriam mantidos na prisão por muito tempo", afirmou. "Imagine qual seria a pena contra alguém que trabalha para um país estrangeiro e tenta derrubar um governo europeu? A pena pode até ser de morte."

Acordo. Alarcón admitiu que existe a possibilidade de que alguns dos presos libertados fiquem em Havana. "O acordo com a Igreja determina que os presos fiquem livres para viajar ao exterior. Mas se quiserem ficar, também podem", disse. "Há gente libertada em Cuba, há alguns anos, que nunca deixou o país."

Há uma semana, 11 presos chegaram à Espanha. Outros oito desembarcarão nos próximos dias. Mas o esforço do governo espanhol, liderado pelo primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero, parece ter sido um tiro no pé. Mal chegaram à Espanha, os opositores cubanos criticaram os socialistas e se aproximaram da direita espanhola, comandada por Mariano Rajoy, líder do Partido Popular.

PARA LEMBRAR

Pressão externa teria levado à ação

A libertação de presos cubanos, geralmente, associa-se à pressão externa e aos gestos de boa vontade do regime. Em 1978, Fidel Castro soltou 3.600 opositores após se reunir com exilados. Na visita do papa João Paulo II, em 1998, 299 foram libertados. Outras libertações ocorreram ainda quando o ex-presidente dos EUA Jimmy Carter e o chanceler espanhol, Miguel Ángel Moratinos, visitaram a ilha, em 2002 e 2009, respectivamente.

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