Erin Scott/EFE
Erin Scott/EFE

‘Cuba se beneficia do fato de o governo americano não querer se envolver’, diz John Kavulich

Para o presidente do Conselho Econômico e Comercial EUA-Cuba, administração Biden evita colocar as questões da ilha em sua política neste momento

Entrevista com

John Kavulich, presidente do Conselho Econômico e Comercial EUA-Cuba

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2021 | 05h00

Após as grandes manifestações contra o governo em Cuba, ocorridas no último domingo, 11, surgiram os questionamentos sobre quais seriam as medidas tomadas pelo presidente americano Joe Biden. Em meio a afirmações, principalmente por parte de Havana, de que cubanos-americanos que vivem em Miami financiaram movimentos dissidentes na ilha e inflamaram os protestos, a Casa Branca se limitou a condenar qualquer uso de força e pediu que as lideranças políticas cubanas escutem o que pedem os manifestantes. 

“O governo Biden não quer ter que se engajar com isso, mas sabe que se algo acontecer em Cuba, a reação de membros do Congresso, mídia e eleitores na Flórida será demandar que ele faça algo que não quer”, afirma o presidente do Conselho Econômico e Comercial EUA-Cuba, John Kavulich. Para ele, Cuba perdeu espaço na política americana ao longo dos anos e agora é preciso entender qual será a extensão das manifestações e reações de Havana para entender as possíveis respostas dos EUA.

O senhor enxerga um ponto de virada no socialismo de Cuba?

Um ponto de inflexão talvez? Não sei e quem diz que sabe também não sabe, porque nem os cubanos sabem. Sou hesitante em prever se o que ocorreu domingo e segunda-feira faz parte do momento que será mais importante do que outros em Cuba. Sou cético em apoiar isso porque a história sempre foi feita de momentos. Manifestações, questionamentos, ocorreram em Cuba e o governo sempre esteve dando respostas e pronto para seguir. (O presidente Miguel) Díaz-Canel está no Twitter, outras autoridades também. O Granma está no Twitter. Ou seja, as lideranças cubanas não estão lutando uma batalha do século 21 com ferramentas do século 20, estão lutando igualmente. E o governo de Cuba se beneficia do fato de o governo americano não querer se envolver. É chocante que Cuba, Haiti, não estejam neste momento no radar da política americana.

Por que Cuba deixou de ser uma prioridade da política americana?

Cuba sempre teve uma importância na política americana maior do que deveria. As questões de sua localização e economia foram maximizadas por conta dos dissidentes vivendo nos EUA. Isso levou a consequências internas, mas com o tempo, os EUA foram se envolvendo no Afeganistão, na Nicarágua, na Ucrânia, em vários conflitos em diferentes países. Isso forçou os EUA a focar e lentamente, Cuba passa a ser vista como outro país do Caribe com potencial, mas que não necessita tanta atenção como antes. Isso é bom para Cuba, e para os EUA também. Cuba só foi tão grande (na política americana) porque outros países deram dinheiro. Quando teve que sobreviver por conta deixou de ser tão importante.

Se perdeu tanta importância, por que o embargo ainda existe?

As divisões políticas nos EUA se tornaram tão diferentes que o embargo se transformou numa ferramenta para tentar punir Cuba. O pensamento passou a ser ‘ou você gosta do socialismo ou da democracia, então se você vai apoiar mudanças, você deve ser fraco com ditadores, comunistas e socialistas’. Isso tornou mais fácil deixar as coisas como estão. Presidentes após serem eleitos focam na reeleição. Trump talvez tenha feito isso com mais ênfase do que qualquer um nos EUA. Além disso, o embargo é difícil de derrubar em termos de legislação. Obama conseguiu fazer mudanças, mas o embargo mesmo continuou. 

Com maioria democrata no Congresso, Biden tem a oportunidade de mudar a política americana para Cuba?

Ele tem a oportunidade porque a Câmara é dominada por democratas, mas no Senado é 50-50 e alguns democratas se opõem a essas mudanças. No Congresso, três senadores e sete deputados são cubanos americanos. Ao votarem como bloco, pode ser impactante e eles votarão como bloco. Biden tem outras questões que são mais importantes para ele e para os EUA. No fim das contas, ninguém se importa e parte disso é porque Cuba não criou uma mensagem para dizer que precisa que se preocupem. Além disso, muito mais podia ter sido feito na era Obama, como permitir que empresas americanas se envolvessem de fato, mais profundamente na economia cubana. Isso teria dificultado que Trump revertesse a abertura que foi feita.

Então por que é importante que os EUA, a Casa Branca, se manifestem sobre o que está ocorrendo em Cuba?

A resposta é uma palavra: Flórida. Em 2022, (o senador republicano) Marco Rubio tentará a reeleição, assim como tantos outros e essa questão importa na eleição neste Estado. É por isso que tudo se trata da ótica da Flórida, por isso Trump venceu lá. Muitos vão dizer ‘mas Biden está olhando isso tudo sob a ótica da política’. Claro, ele é político, ele vai olhar de forma política, é natural, seria absurdo pensar o contrário. 

Por que o senhor diz em suas análises que a administração Biden está refém da administração Díaz-Canel?

Porque o governo Biden não quer ter que se engajar com isso, mas sabe que se algo acontecer em Cuba, a reação de membros do Congresso, mídia e eleitores na Flórida será demandar que ele faça algo que não quer. Díaz-Canel pode contornar a situação de certa forma que force Biden a agir.  Um exemplo: a administração Biden pode planejar remover as restrições que Trump impôs ao envio de remessas a Cuba, por exemplo, mas a administração Trump não impediu as remessas para Cuba, impediu o uso de certos bancos controlados por militares cubanos e disse ‘usem outros meios’. A questão de Biden será: se ele diz que vai remover os impedimentos a remessas, ele vai permitir que sejam usados bancos controlados por militares cubanos? É muito delicado. 

Agora, é preciso observar o que ocorrerá no próximo domingo porque tradicionalmente é no aniversário de determinados eventos que medimos isso. Domingo fará uma semana do grande protesto em Cuba. Haverá mais manifestações? O que o governo de Cuba fará sobre isso? Esse sim poderá ser o ponto de inflexão que falei antes. Se as demonstrações forem maiores e o governo reagir com força, aí estaremos vendo um padrão, mas por enquanto, a situação das mobilizações está diminuindo. 

É possível avaliar as ações de Díaz-Canel até agora?

Se ele tem uma estratégia, não sei qual é. Ele é bom em controlar a narrativa. Ele está gastando tempo em determinar o que precisa fazer domesticamente e como manusear as respostas americanas. Estão tentando entender e enxergar as manifestações como certa forma de pressão aos EUA justamente para rever as políticas americanas para Cuba.

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