Cuba se mostra reticente a medidas de flexibilização propostas por Obama

Para Havana, medida não representa avanço, pois já havia sido adotada por governo Clinton

Efe

17 de janeiro de 2011 | 19h34

HAVANA - A flexibilização das viagens e de envio de dinheiro feitas dos Estados Unidos em direção a Cuba, anunciada na última sexta-feira por Washington, não convenceu Havana, que critica uma suposta falta de vontade para mudar a política de "bloqueio e desestabilização" voltada para a ilha.

 

A imprensa oficial cubana divulgou nesta segunda-feira, 17, o comunicado com o qual o governo de Raúl Castro respondeu, na noite de domingo, à decisão dos Estados Unidos de permitir as viagens à ilha com fins acadêmicos, culturais e religiosos, e os envios de remessas (até US$ 500 por trimestre) a cubanos que não sejam parentes.

 

De acordo com Havana, a medida não representou um avanço, já que chegou a ser tomada por Bill Clinton quando este era o presidente americano, mas depois foi derrubada por seu sucessor, George W. Bush, em 2003.

 

Embora qualifique as ações como "positivas", Cuba as considera de alcance "muito limitado", porque "só beneficiam determinadas categorias de norte-americanos", e "não modificam a política contra a ilha".

 

Cuba acredita inclusive que os Estados Unidos buscam "novas vias para alcançar seus objetivos históricos de dominação", e que relaxaram as restrições de viagens e remessas para "fortalecer os instrumentos de subversão e ingerência nos assuntos internos de Cuba".

 

Especialistas consultados pela Agência Efe disseram que a resposta de Havana reproduz a retórica e rotina "frequentes" que caracterizam suas declarações oficiais feitas aos Estados Unidos.

No entanto, os mais otimistas interpretam como sinais "favoráveis" o fato de que haja "mensagens de ida e volta", e que o governo cubano considere as medidas como "positivas".

 

Não faltam ainda os que acreditam que este novo capítulo confirma a "mudança de enfoque" ocorrida durante os mandatos de Barack Obama e Raúl Castro, diferente dos "jogos dialéticos" entre ambos os países, que não possuem relações diplomáticas há mais de 50 anos.

 

Outros, no entanto, são céticos, e opinam que Cuba e EUA seguem "envolvidos na retórica do confronto", que Obama tem "pouco espaço" em seu país para modificar substancialmente a política voltada para a ilha, e que o momento bilateral atual está lastrado pela detenção em Cuba do americano Alan Gross, acusado por Havana de "espionagem".

 

Washington anunciou suas novas medidas pouco após o encerramento em Havana da quarta rodada de diálogo migratório entre Cuba e Estados Unidos, cuja delegação aproveitou para pedir novamente a imediata libertação de Gross.

 

Quem se mostrou especialmente crítico com a resposta de Cuba aos EUA nesta segunda-feira foi o economista dissidente Óscar Espinosa, que, em declarações à Agência Efe, a qualificou de "inconcebível" e "decepcionante". Segundo ele, as medidas de Washington "não resolvem os problemas" nem revertem o embargo contra a ilha, mas representam "um passo positivo".

 

Segundo Espinosa, o governo de Raúl Castro deveria ter contestado com gestos como a libertação de Gross ou a dos 11 dissidentes do Grupo dos 75 que ainda permanecem na prisão.

 

Sobre o impacto que terá sobre Cuba a flexibilização das viagens e envio de dinheiro desde os Estados Unidos, Espinosa considera que do ponto de vista econômico tais ações não serão relevantes, embora representem mais ajuda aos cubanos "em um momento difícil".

 

As medidas anunciadas por Washington, que entrarão em vigor dentro de duas semanas, acontecem em um momento marcado na ilha pelo plano de reformas impulsionado pelo presidente Raúl Castro para superar a aguda crise econômica que atinge o país.

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