Yander Zamora/EFE
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Cuba unificará moedas e salário mínimo terá aumento de 425% para evitar perdas

Medida tem como objetivo dar mais eficiência à economia cubana e facilitar os investimentos estrangeiros, no momento em que a ilha, privada há meses da receita da indústria turística devido à pandemia de coronavírus, precisa de dinheiro

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2020 | 16h01

HAVANA - Cuba encerrará o atual sistema de duas moedas locais, único no mundo e em vigor há 26 anos, e terá uma única taxa de câmbio unificada de 24 pesos por dólar a partir de janeiro, anunciou o presidente Miguel Diaz-Canel. Nesta sexta-feira, 11, o regime cubano anunciou que aplicará um aumento significativo dos salários para compensar o avanço da inflação e quintuplicará o mínimo.

A unificação da moeda tem como objetivo dar mais eficiência à economia cubana e facilitar os investimentos estrangeiros, no momento em que a ilha, privada há meses da receita da indústria turística devido à pandemia de coronavírus, precisa de dinheiro.

"Se considera que estão criadas as condições que permitem anunciar o início da tarefa a partir de 1º de janeiro de 2021 com uma taxa de câmbio única de 24 pesos cubanos por um dólar", anunciou o presidente na quinta-feira à noite em uma mensagem em cadeia nacional, ao lado de Raúl Castro, primeiro secretário do Partido Comunista.

A medida, que pretende corrigir distorções da economia, consiste na eliminação gradual, em seis meses, do peso conversível (cuc), criado em Cuba há 26 anos. O peso cubano (cup), até agora utilizado pelo Estado para pagar salários e cobrar os serviços básicos, permanecerá como a moeda em vigor.

A medida "não é isenta de riscos", afirmou o presidente, que citou como um dos principais problemas a possibilidade de uma inflação superior às previsões, agravada pelo déficit de oferta, assim como potenciais preços abusivos e especulativos.

Díaz-Canel destacou que esta "não é uma solução mágica a todos os problemas", mas deixará o país "em melhores condições para as transformações que demanda para a atualização" do modelo econômico.

O processo, que havia sido anunciado em 2013, mas constantemente adiado à espera do melhor momento de implementação, acontece no pior cenário possível, quando a economia cubana deve registrar queda de 8% este ano, segundo as previsões da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe).

O presidente cubano afirmou que esta é "uma das tarefas mais complexas de ordem econômica" enfrentadas pelo país, afetado também pela intensificação durante a pandemia do bloqueio imposto pelos Estados Unidos.

"Efetivamente o contexto econômico e político não é o melhor, a economia está em condições muito similares ao início dos anos 90, depois da queda da União Soviética", resumiu Pavel Vidal, economista cubano da Universidade Javeriana de Cali (Colômbia).

Fim dos subsídios

A unificação da moeda acontece depois que as autoridades voltaram a aceitar o dólar em outubro de 2019, com a abertura de lojas de eletrodomésticos e alimentos que aceitam pagamentos apenas com esta moeda. O valor do cup poderia sofrer ante uma moeda forte. 

O governo advertiu que deseja eliminar a maioria dos subsídios, que representam um apoio fundamental para as empresas estatais e também para os habitantes da ilha. Eventualmente, o cartão de racionamento também vai acabar e apenas algumas subvenções devem ser mantidas.

As empresas estatais, que representam 85% da economia e que até agora foram beneficiadas por uma taxa de câmbio de um cup por um dólar, registrarão aumento dos custos de produção e, portanto, de seus preços. 

Mas também terão mais incentivos para exportar, o que não acontece atualmente com a taxa de um cup por cada dólar recebido.

"O ajuste da taxa de câmbio, dos preços e subsídios são fundamentais para estimular as exportações e a substituição de importações, fortalecer as cadeias produtivas e fechar as empresas estatais improdutivas", acrescentou Vidal, antes de destacar que é necessário observar "como tudo será feito sem que o desemprego e a inflação saiam de controle".

Nesta sexta-feira, o Diário Oficial de Cuba afirmou que o governo aplicará um aumento significativo dos salários para compensar o avanço da inflação. O salário mínimo será quase quintuplicado e passará de 400 para 2.100 pesos cubanos (de US$ 17 para US$ 87).

O Ministério do Trabalho estabelece 32 escalas, segundo o tipo de trabalho, ou de atividade profissional, chegando a 9.510 pesos cubanos (US$ 396). Hoje, o salário médio na ilha é de 879 pesos cubanos (US$ 37), de acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas.

"A unificação da moeda está atrasada, mas será doloroso para os cubanos que recebem parte de sua renda em pesos conversíveis, pois terão seu poder de compra corroído, disse John Kavulich, o presidente do centro de estudos U.S.-Cuba Trade and Economic Council, de Nova York. "Cuba está implementando reformas dolorosas durante um de seus momentos mais sombrios", disse Kavulich em entrevista por telefone ao Washington Post./EFE, AFP e W.Post  

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