Cubanos correm para entrar nos EUA

Muitos na ilha temem que, com a normalização das relações, a chamada lei 'pé molhado, pé seco' seja revogada

Alan Gomez, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2015 | 02h02

Trabalhando como ferreiro em Cuba, Duniseky Alvarez nunca havia colocado o pé num barco. Então ouviu rumores de que as relações normalizadas entre Cuba e Estados Unidos anulariam normas americanas que permitem que qualquer cubano que pise em solo americano possa permanecer no país. Nos dois meses seguintes ele e mais nove cubanos construíram secretamente um barco. Para o motor aproveitaram a turbina de um sistema de irrigação usado em fazendas. Escondiam os materiais num canavial, conversavam ao telefone em código, o barco foi construído em 10 dias numa região montanhosa infestada de mosquitos, e eles mantiveram seu plano em segredo até o último momento.

Chegaram à Flórida em maio, depois de sete dias agonizantes no mar. "Não sabia se ria ou chorava", lembrou Alvarez, de 33 anos. "Tanta coisa se agitava no meu peito que eu não sabia o que sentir".

Muitos outros cubanos também procuram se apressar e seguir Alvarez à medida que o presidente Barack Obama e Raúl Castro adotam medidas para pôr fim a mais de meio século de relações estremecidas. A nova onda de balseiros começou a partir de boatos, num país praticamente sem acesso à internet, de que o estatuto de imigrante preferencial para cubanos terminará em breve. Como resultado, as viagens aumentaram tanto a ponto de obrigar a Guarda Costeira americana a intensificar seus esforços para interceptar os "balseiros" obrigando-os a retornar a Cuba. Desde 1.º de junho os guardas recolheram 1.864 cubanos no mar, quase o total registrado em 2014, de 2.059.

"A informação que você tem é o que ouve", disse Arnaldo Enseñat, de 31 anos, pescador de Cienfuegos que partiu com Alvarez. "Ouvi falar que Obama vai mudar a Lei de Ajuste Cubano em fevereiro. Quando ouvi isso não quis esperar mais."

A dúvida agora é se a normalização das relações entre os dois países levará a uma revogação da lei de 1966 que permite que os cubanos que escapam da Guarda Costeira e chegam a solo americanos obtenham autorização de permanência e de trabalho depois de um ano, ajudem financeiramente seus parentes que ficaram na ilha e até se tornem cidadãos americanos.

Os imigrantes de qualquer outro país que conseguem entrar nos EUA são recompensados com uma vida de imigrante ilegal, sem acesso aos benefícios do governo e o temor constante de serem descobertos pela polícia ou pelas autoridades da imigração. Decidir se essa lei deve ser mudada é difícil para todas as partes no debate. O senador Marco Rubio, da Flórida, pré-candidato republicano contrário à normalização de relações com Cuba, deseja mudar a lei, alegando que os cubanos não são mais refugiados políticos tradicionais fugindo de um governo comunista, mas refugiados econômicos. Ele diz que muitos cubanos hoje chegam aos Estados Unidos, esperam um ano para estabelecer residência legal e então começam a visitar Cuba regulamente.

Dissidência. Segundo Jaime Suchilicki, diretor do Instituto para Cuba e Estudos cubano-americanos na Universidade de Miami, a lei deve ser emendada para garantir somente o estatuto legal para pessoas que comprovadamente sofrem perseguição política. "Ela deve ser aplicada rigorosamente a pessoas envolvidas em atividades políticas contra o governo cubano, os dissidentes", disse. Ira Kurzban, advogado de Miami especializado em imigração, diz que não tem precedentes o fato de pessoas de um país receberem um tratamento preferencial por tanto tempo. "Os cubanos conseguiram entrar nos EUA, ao passo que haitianos são feridos e executados no Haiti", afirmou.

Para outros a lei deve continuar enquanto o Congresso mantiver o embargo contra Cuba, que, segundo os líderes republicanos continuará apesar da normalização. "É imoral dizer ao povo cubano que estamos fechando as portas para eles e ao mesmo tempo insistir numa política que procura estrangular sua economia", disse Ric Herrero, diretor executivo do #CubaNow, grupo que pressionou Obama a normalizar as relações.

Alguns estão indecisos. Carolina Tapia-Ruano, advogada e ex-presidente da American Immigration Lawyers Association, foi para os Estados Unidos com seus pais quando tinha 5 anos. "Como advogada , acho que a lei é injusta. Beneficia os cubanos de uma maneira que, na minha opinião, discrimina todas as outras nacionalidades que têm necessidades similares. Como cubana gosto do fato de os cubanos terem tratamento preferencial, pois se trata de uma situação incrivelmente única, especialmente porque os EUA têm muito a ver com os motivos pelos quais esses indivíduos se tornaram refugiados."

Segundo a advogada, o tratamento preferencial continua por causa da influência política: as ondas de cubanos que fugiram do regime de Fidel Castro se estabeleceram economicamente em Miami, contribuíram para campanhas políticas e votam em grande número. Quatro cubano-americanos foram eleitos para o Senado dos EUA e oito para a Câmara, aumentando sua base de apoio. "Do mesmo modo que os irlandeses em Boston, os italianos na Filadélfia e os judeus em Nova York, foi o que os cubanos fizeram em Miami", disse a advogada. "Ao trazerem as pessoas para os EUA e permitir que se tornassem residentes, com direito de votar, eles criaram essa enorme base de apoio que ajudou a manter a Lei de Ajuste Cubano. Mas com a bandeira americana sendo hasteada na Embaixada dos EUA em Havana na segunda-feira, mesmo os balseiros não saberão mais se a política do 'pé molhado, pé seco' deve sobreviver."

"Se as relações serão normalizadas, eles têm de revogar a lei. Mas há muitas pessoas lá que querem fazer exatamente o que eu fiz", disse Alvarez. (Tradução: Terezinha Martino).

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