Cubanos da Flórida já não são tão republicanos

Pesquisa mostra que 39% dos latinos do Estado identificam-se como democratas, enquanto 30% deles preferem partido de Mitt Romney

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL, TAMPA, FLÓRIDA, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2012 | 03h05

Tradicionalmente, os cubano-americanos da Flórida davam preferência aos republicanos, pois associavam a esquerda ao regime de Fidel Castro, em geral o motivo de sua fuga de Cuba. Em 2008, o repórter do Estado detectou uma mudança nessa tendência.

A abordagem mais flexível de Barack Obama atraiu o voto de cubanos vindos há menos tempo, mais preocupados em poder visitar suas famílias com mais frequência do que em manter uma política de embargo contra a ilha que, em cinco décadas, contribuiu para a privação de sua população, mas não abalou o regime.

Quatro anos mais tarde, esse processo está consolidado. Obama cumpriu a promessa de reduzir de três para um ano o intervalo em que os cubanos radicados nos Estados Unidos podem visitar seus parentes em Cuba, atraindo ainda mais eleitores.

Além disso, observa a cientista política Susan MacManus, da Universidade Estadual da Flórida em Tampa, os jovens americanos descendentes de cubanos estão mais voltados para as questões internas, em especial a economia - e, com ela, o seu futuro.

Segundo a pesquisadora, 39% dos latinos da Flórida identificam-se hoje como democratas, 30% como republicanos e 29% como independentes. De acordo com as pesquisas, no país todo, dois terços dos latinos votam em Obama. Há quatro anos, o repórter encontrou os cubano-americanos de Miami e de Tampa divididos entre John McCain e Barack Obama. Desta vez, não achou nenhum latino disposto a votar em Mitt Romney. Há fortes e variados motivos para a identificação entre os latinos e Obama, tão sólida que superou a histórica rivalidade entre eles e os negros nos guetos dos Estados Unidos.

"Obama até agora não teve a oportunidade de fazer tudo o que prometeu em quatro anos", justifica Eva Pérez, uma médica de 52 anos, que saiu de Cuba em 1969, aos 19 anos. "A única coisa que Mitt Romney fez até agora foi ridicularizar as minorias. Fala muita porcaria, como o pegaram outro dia falando dos 47%", continuou a médica, referindo-se ao vídeo em que o candidato republicano aparece em um jantar de arrecadação de fundos em Boca Raton, a 350 quilômetros de Tampa, dizendo que essa fatia do eleitorado não paga impostos, vive do Estado e não votaria nele.

"Obama defende a educação, e nós latinos queremos que nossos filhos vão à universidade", disse Eva, ao lado de sua filha Sonia, de 23 anos, estudante de ciência política, que também votou e votará novamente no presidente. Eva disse ser a favor do embargo contra Cuba: "Obama o manteve, mas tornou mais fácil a ida das pessoas que têm família em Cuba. Se a família daqui não pode ir ver os familiares de lá, de que vivem?"

"Acho que 52 anos de embargo contra Cuba já bastam", avalia Sergio Delgado, de 83 anos, neto de cubanos nascido nos Estados Unidos. Funcionário aposentado dos Correios, Delgado é eleitor democrata, como grande parte dos funcionários públicos. "Gosto de Obama porque está do lado das minorias, dos trabalhadores, dos sindicatos, da classe média e do direito de escolha das mulheres (de fazer aborto)", explica. "Meus amigos cubanos em geral votam nos republicanos, mas sempre votei nos democratas, porque estão a favor do povo. Deram-nos a Previdência Social e muitas coisas de que podemos desfrutar."

Na outra ponta do espectro etário está Rosario Fernández, de 26 anos, que trabalha na contabilidade de um hospital. Nascida em Cuba, ela obteve a cidadania americana há pouco tempo e vai votar pela primeira vez. "Muita gente diz que Obama não serve para as pequenas empresas, que com ele a política externa foi para o buraco, que a economia não anda", enumera ela. "Há quatro anos, quando começou a crise, você via muito pouca gente nas ruas consumindo, porque tinham medo de gastar seu dinheiro. Eu acho que nos últimos quatro anos a economia está se movimentando."

Rosario continua: "Obama pode não ser mágico, mas gosto dele, e não confio em Romney. As pessoas se vendem muito. Quando querem ser presidentes são uma maravilha . Depois é que se vê. Pelo menos Obama já foi testado. Pegaram Osama bin Laden e gosto disso." O marido dela ainda não é cidadão americano, mas diz que, se pudesse, também votaria em Obama.

Em setembro, Obama admitiu que o fato de não ter conseguido fazer uma reforma na lei de imigração foi seu "maior fracasso" e atribuiu ao fato de ter-se dedicado a debelar a crise econômica, assim como à resistência republicana no Congresso.

"Não fiz tudo o que quero fazer", disse ele, em entrevista ao canal hispânico Univisión. "É por isso que estou disputando um segundo mandato." Romney também promete uma reforma na lei para facilitar a imigração. Mas a imagem e o histórico dos democratas nesse quesito são mais favoráveis.

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