Cubanos desconfiam de novo rumo da ilha

Demissão de meio milhão de funcionários públicos e retomada do setor privado ainda levantam dúvidas sobre as mudanças econômicas sugeridas por Fidel e Raúl Castro

Damien Cave /The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2010 | 00h00

Jorge Gomez pretende ajudar seus parentes em Havana que querem abrir empresas. Mas quando? Como muitos cubanos, ele está examinando cuidadosamente o comunicado de que 500 mil funcionários públicos, em breve, serão demitidos e esperam encontrar trabalho em pequenas empresas privadas, o que, provavelmente, deverá reconfigurar a economia do país. Mas esse comunicado não é o suficiente para Jorge Gomez apagar da memória as aberturas econômicas anteriores que foram depois freadas bruscamente por Fidel e Raúl Castro.

"Você abre qualquer coisa e depois eles dizem para fechar", disse o cubano, de 40 anos, proprietário de uma empresa que trabalha com transferência de fundos em Miami, enquanto aguardava seu voo para Havana. "É um sistema projetado para não funcionar." Cuba, ao que parece, ainda é vista com olhos cautelosos em Miami e a planejada implementação de um sistema econômico híbrido desconhecido pode pesar na balança.

A comunidade expatriada no sul da Flórida, que se opõe veementemente ao governo Castro, é uma fonte natural - e talvez necessária - de capital para um setor privado que o governo cubano diz que é preciso expandir para ressuscitar a economia. Um número crescente de cubano-americanos vem reatando laços com a ilha desde a decisão do governo Obama, no ano passado, de anular as restrições de viagens e remessas de dinheiro para parentes.

O que muitas pessoas se perguntam agora é se Cuba se vê forçada pelas dificuldades econômicas a reagir à decisão, mesmo que na sua típica maneira vaga e vacilante. Faz pouco mais de um mês que o presidente Raúl Castro comunicou à Assembleia Nacional que "a folha de pagamento inchada" seria reduzida, abrindo a porta para o trabalho autônomo em atividades como carpintaria e criação de coelhos e também para a formação de novas cooperativas.

Segundo especialistas, o alcance dessas mudanças é muito maior do que as propostas anteriores. Por exemplo, pela primeira vez em décadas, o governo deve autorizar os cubanos a contratarem empregados que não sejam parentes. Mas, de acordo com donos de empresas e analistas, as intenções de Havana, aparentemente, ainda não produziram nenhum aumento de dinheiro enviado à ilha por parentes que vivem fora ou de produtos que poderão ajudar os empreendedores a abrir uma empresa.

O projeto do governo, que ainda tem de ser delineado na íntegra, vem suscitando mais perguntas do que respostas. Onde as empresas comprarão os insumos? A entrada de capital para alguns, mas não outros, pode fomentar tensões raciais e de classe, uma vez que a riqueza cubano-americana está concentrada nas mãos de exilados brancos em Miami? Quanto de imposto as novas empresas deverão pagar e qual o lucro que terão antes que o governo possa interferir?

Desconfiança. "As coisas avançam muito lentamente em Cuba porque as autoridades estão mais preocupadas com a possibilidade de que as reformas não prejudiquem o equilíbrio de poder", disse Jorge Sanguinetty, presidente da Associação para Estudos da Economia Cubana, um grupo de pesquisa. "Esta é a realidade. Eles não querem copiar Gorbachev, que começou as reformas na Rússia e tudo veio abaixo."

Para Sanguinetty, que foi funcionário do alto escalão do governo cubano para assuntos econômicos até junho de 1966, quando renunciou ao posto, Cuba pode estar iniciando um longo e meticuloso processo de restabelecimento das relações econômicas mais básicas. Ele ainda observou que a ilha acabou com as escolas de contabilidade, na primeira década após a revolução, porque, para as autoridades, dinheiro seria desnecessário e muitos cubanos não tinham nenhuma experiência com cartões de crédito, bancos ou cheques.

Agora o governo precisa progredir nessa área, com licenças de importação e uma comunicação mais clara das regras, se pretende fazer dos empreendedores um elemento vital da economia. Para Jorge Gomez, é preciso haver garantias legais de que os investimentos não serão perdidos em virtude de algum eventual confisco.

Serafin Blanco, dono de uma imensa loja que vende produtos com descontos - que já tem um estoque que inclui chinelos a US$ 1,99 e outros artigos para parentes revenderem em Cuba -, disse que a proibição americana de viagens de turismo à ilha precisa ser revogada para as empresas conseguirem decolar. "Haverá muito dinheiro circulando para apoiar essas pequenas lojas", afirmou.

Outros cubanos alertam os parentes para verem se seu vizinho está se saindo bem sob o novo sistema para depois aderirem a ele. Muitas pessoas em Cuba sobrevivem do capitalismo clandestino e muitos empregados do governo já trabalham em outras atividades para aumentar a renda, além do salário de US$ 20 dólares por mês.

Maria Garcia, que trabalha como caixa de um banco em Miami, comprou um liquidificador para sua avó para que ela vendesse sucos de frutas no pátio da sua casa em Cuba. Maria, que também costuma enviar adoçante para a avó, junto com brinquedos para revenda, disse que sua família não tem pressa em abandonar o mercado negro. "Temos que esperar e ver". Ela acrescentou que uma amiga da sua mãe, em Havana, é um exemplo do desafio enfrentado por Cuba ao experimentar uma nova dose de capitalismo. A mulher, chamada Olga, costura sutiãs e roupas íntimas com tecido enviado por parentes em Nova Jersey. Ela conseguiu uma licença do governo, há alguns anos, depois que Cuba passou a permitir o trabalho autônomo, mas as vendas que ela faz para os vizinhos nem sempre cobrem o custo mensal da licença que precisa para trabalhar legalmente. Assim, Olga não paga mais a licença, mas continua costurando os sutiãs.

Flexibilidade. Na ilha, tais experiências são comuns. No auge do processo de licenciamento, em janeiro de 1996, havia 209 mil pessoas trabalhando por conta própria, segundo o Banco Mundial. Hoje, são cerca de 144 mil para uma mão de obra que chega a 5,1 milhões de pessoas. Alguns especialistas e empresários que mantêm laços com Cuba, como John Cabanas, proprietário da C&T Charters, em Miami, acreditam que, desta vez, a empresa privada crescerá sem a interferência do governo.

Para Sanguinetty, os cubanos devem esperar por uma "flexibilidade rígida", sugerindo que a ilha evoluirá, mesmo que alguns dentro do país resistam. Segundo ele, o setor de construção será um teste do comprometimento do governo com as reformas, porque é um setor predestinado a um forte crescimento - se os líderes, os burocratas e os cubanos mais velhos o permitirem.

Mas, mesmo imaginando Cuba com um pequeno setor financeiro novamente, fornecendo empréstimos para pequenas empresas, e com o impulso para construir torres de escritórios em uma Havana em ruínas, muitos cubanos têm ressalvas quando pensam no futuro e relembram as decepções do passado. "É só para mostrar para o mundo que estão melhorando", disse Ernis Rodriguez, pouco antes de voltar de uma visita ao país que deixou há sete anos. "Mas não é verdade", concluiu. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA DO "NEW YORK TIMES"

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