Cubanos e americanos não são tão diferentes

Beisebol, jazz, hábitos alimentares são pontos comuns; EUA poderiam ajudar mais a população da ilha se acabassem com o embargo econômico que já dura meio século

Courtland Milloy, do The Washington Post, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2011 | 00h00

Recentemente, visitei Havana com um grupo de jornalistas dos EUA. Os cubanos nos acolheram gentilmente. Jantamos em casas de agentes comunitários e conversamos sobre desigualdades sociais em Cuba. Também nos reunimos com Johana Tablada, vice-diretora do Departamento de Assuntos Americanos do Ministério do Exterior cubano, que nos ofereceu um chá e uma análise da vida de luxo que experimentou quando viveu na casa de amigos em um bairro rico da capital americana.

"Ouçam, talvez vocês tenham dez marcas de cereal e cem opções de roupas", disse ela. "Mas não sinto falta disso quando estou aqui. Na hora do almoço, aproveito para ver minha mãe. Em Washington, as pessoas não param, não olham o que ocorre em volta. Sempre existe alguma coisa para consumir, que também consome a sua vida."

Mais notável do que a observação de Johana é a que ponto a marca de socialismo de seu país parece aterrorizar o governo dos EUA. O embargo econômico imposto há meio século teve por meta submeter Cuba e classificá-la como um "Estado que patrocina o terrorismo", sugerindo uma mudança de regime pela força.

Em abril, segundo o Washington Post, a nova presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara, Ileana Ros-Lehtinen, da Flórida, disse que acolheria com prazer o assassino do líder cubano Fidel Castro.

Passamos uma semana nessa terra proibida, numa viagem patrocinada pela Universidade AT&T, da Carolina do Norte. Durante visita a uma casa na periferia da capital, alguns do nosso grupo viram um documentário exibido pela TV cubana chamado Raza, que abordava o racismo. Nele, um professor de balé cubano afirmava que os negros não são bons bailarinos porque seus "glúteos" são grandes e seus pés "inflexíveis". Imagine se Judith Jamison e o Alvin Ailey Dance Group, de Nova York, pudessem viajar livremente para Cuba e mostrar que essa noção é errada.

Há muitas maneiras de os dois países se ajudarem. Em vez disso, a arrogância americana e o orgulho cubano nos privam disso. Heriberto Feraudy, da Associação de Escritores e Artistas Cubanos nos disse que gosta do povo americano, mas não da política dos EUA em relação a Cuba. Perguntei qual era a diferença, afinal os EUA somos nós. "O povo americano não governa o pais", respondeu. "O presidente Obama não governa o país." Questionado sobre quem governaria, ele disse que não sabia, mas tinha conhecimento de que mais de 70% dos americanos são a favor da suspensão do embargo - e Obama também. Contudo, o bloqueio continua.

O Cato Institute, com sede em Washington, diz que o embargo "tornou a população cubana mais empobrecida, sem que ela ficasse mais livre". Os cubanos que encontrei não são escravos comunistas. Muitos estavam fascinados com a transição que vem ocorrendo em Cuba. Apenas não querem uma mudança a qualquer preço. "No passado, as pessoas perdiam seus valores em função do turismo, faziam qualquer coisa por dinheiro", disse Abel Contreras, nosso guia. "Uma das melhores coisas que esse governo fez foi dar a possibilidade de sermos nós mesmos, nos respeitarmos e não sermos tratados como um bordel dos EUA."

Contreras observou como os dois países têm muita coisa em comum. "Gostamos de beisebol, de jazz, queremos um sistema de saúde universal e uma boa educação para todos." Sem contar a comida. Contreras gosta de feijão preto e arroz. Eu gosto de feijão vermelho e arroz. Afinal, tirando o molho picante político, nossos gostos não são tão diferentes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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