REUTERS/Jose Luis Gonzalez
REUTERS/Jose Luis Gonzalez

Cubanos encontram em Ciudad Juárez nova porta de entrada para os EUA

Caravanas de imigrantes centro-americanos que chegaram ao México no ano passado motivaram dezenas de cubanos a viajar para este local, de onde pedem asilo no país vizinho; hoje, eles são 70% dos mais de 3,3 mil migrantes em trânsito na cidade

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2019 | 15h46

CIUDAD JUÁREZ - Em um fenômeno sem precedentes no México, Ciudad Juárez, na fronteira com os Estados Unidos, abriga milhares de migrantes de Cuba que aguardam para pedir ou resolver uma solicitação de asilo no país vizinho.

"Fomos muito bem recebidos aqui. A comida é um pouquinho apimentada, mas isso não é culpa deles", disse, com um sorriso no rosto, Juan Carlos Flores, que há mais de um mês está com a mulher na cidade, que fica no Estado de Chihuahua.

Juan disse ter escolhido este local ao saber que os solicitantes de asilo conseguiam passar, aparentemente, de forma rápida e sem riscos. O casal, então, decidiu migrar por não simpatizar com o atual governo de Cuba.

Embora admitam que existam "prós e contras no sistema" da ilha, os dois preferiram deixar seu país natal em busca de um emprego melhor na terra dos sonhos de muitos, os Estados Unidos.

"A pessoa que criou a cobertura (do tema) na mídia e direcionou a atenção (de potenciais migrantes) para as caravanas foi o presidente (dos EUA), Donald Trump", disse Tonatiuh Guillen, diretor do Instituto Nacional de Migração do México.

De acordo com dados oficiais, 70% dos mais de 3,3 mil migrantes que estão em deslocamento nessa cidade mexicana no momento são cubanos.

"Juárez, inclusive, já era uma cidade sem muita importância para os fluxos migratórios para os EUA. Ver que se tornou novamente um centro dos fluxos migratórios foi muito surpreendente", explicou o pesquisador do Departamento de Estudos de População do Colegio de la Frontera Norte (Colef) Jesús Peña.

De acordo com o especialista, a situação começou a crescer após a chegada de 100 migrantes cubanos a esse ponto da fronteira, em outubro. Esse primeiro grupo conseguiu entrar nos Estados Unidos menos de 24 horas depois de ter pisado na cidade.

"Essas pessoas saíram de países como o Brasil e foram para Ciudad Juárez, porque a primeira caravana estava em Tijuana. Acredito que tenha sido mais fácil chegar, inclusive havia mais conexões de voos e rotas de ônibus", analisou Peña.

A partir daí, começou a correr a notícia de que pela fronteira de Ciudad Juárez-El Paso o acesso era rápido e simples. 

Isel Rojas já havia adiado seu sonho de deixar Cuba quando os EUA acabaram em 2017 com a política de "pé molhado, pé seco" - que garantia residência aos cubanos que conseguissem pisar em território americano sem o visto. Mas ao assistir a cobertura na televisão das caravanas de imigrantes centro-americanos, começou a vislumbrar um novo caminho.

Em uma manhã de janeiro, acordou e falou para a mulher que, finalmente, estava pronto. Quinze dias depois, partiu. "Se eles conseguem (fazer a travessia e chegar aos EUA), por que não conseguiríamos?", questionou Rojas, de 48 anos, que trabalhava com agricultura na cidade de Holguín.

"Nos disseram que temos prioridade, que (os EUA) vão nos aceitar de uma forma ou de outra", disse Rojas, que vendeu quase metade das cabeças de gado que tinha em Cuba para juntar dinheiro. "Eles sempre nos aceitam."

Também favoreceu esse movimento o fato de o Panamá abrir isenção de visto para cubanos há pouco tempo. Era o início da chegada dos cerca de 10,2 mil migrantes que o Conselho Estadual de População (Coespo) contabilizou desde outubro de 2018.

"Enquanto outros lugares recebem pessoas de outras nacionalidades, aqui estamos recebendo principalmente cubanos", disse recentemente o coordenador geral do Coespo, Enrique Valenzuela.

Outra cubana motivada pelas caravanas foi Arasay Sanchez, de 33 anos. Ela contou que usava a internet em um parque quando leu uma notícia sobre esse movimento migratório.

Depois de vender sua casa e quase todos seus pertences, Arasay voou para o Panamá em 25 de janeiro. Ela contou com um guia de sete páginas que recebeu de cubanos que viajaram para os EUA detalhando tudo, desde onde dormir até onde comprar um telefone. 

Arasay e seu parceiro chegaram a Ciudad Juárez no final de fevereiro, mudando de um abrigo para o outro e tentando se acostumar com o tempero da comida mexicana. "Até mesmo os doces" tem Chilli, disse, segurando o excesso de tecido em seu jeans para mostrar que tinha perdido peso.

Pelo grande número de migrantes em trânsito foi preciso criar dez abrigos na cidade para poder atender de forma digna e ordenada esse público.

Em fevereiro, um albergue provisório foi criado no Ginásio do Colégio Bacharéis, que chegou a ter, aproximadamente, 500 migrantes. Isso depois que a Casa do Migrante - associação civil que tradicionalmente atende essa demanda - atingiu a capacidade máxima. Agora, no ginásio, que antes tinha centenas de colchonetes no chão, apenas 90 migrantes, todos cubanos, continuam.

Adriel, que como Juan Carlos está dormindo no ginásio, decidiu deixar a província de Villa Clara para buscar o "sonho americano", segurança e liberdade.

"Meu motivo foi basicamente buscar democracia e liberdade de expressão. Não existia essa liberdade lá. Eles ficam permanentemente em cima de você, tornando a vida praticamente impossível", disse.

Ele e mais dois parentes pertencem ao movimento de oposição que existe no país. Sem querer entrar muito no assunto, ele disse que esta situação o colocava constantemente em risco.

"A gente sente porque é cubano. Temos família, mãe, irmãos. Ninguém quer deixar a própria pátria. Mas, bem, quando é preciso, deve-se fazer", disse entre lágrimas.

Para o pesquisador do Colef, a realidade de Adriel é a de muitos outros migrantes que, além do impacto que significa se afastar da família, existe a dura realidade do país almejado.

"Esta migração de agora já não é uma migração pelo trabalho, já não é simplesmente a ideia do 'sonho americano'. Tem a ver com a deterioração socioeconômica de muitos países que não é viável para uma parte da população", explicou Peña, em referência não só a Cuba, mas principalmente às caravanas migrantes, a maioria formada por centro-americanos.

Para o pesquisador, as políticas públicas atuais foram desenhadas para outra geração de migrantes, por isso é preciso uma "reengenharia das políticas para que passem a se alinhar à nova realidade". 

Chegar aos EUA será o ponto final de uma longa jornada para Reinaldo Ramirez, de 51 anos, um trabalhador da construção civil na cidade cubana de Jaguey Grande. Desde 2006, ele tentou, sem sucesso, chegar à Flórida sete vezes de barco - uma delas, no dia em que Barack Obama acabou com a política do "pé seco, pé molhado".

A nova rota tem sido tão árdua quando suas experiências anteriores. Depois de voar para a Guiana em setembro, Ramirez e sua mulher tiveram que atravessar a Região de Darién, um remoto trecho de selva que vai do Panamá à Colômbia. Depois que eles cruzaram a primeira vez, as autoridades panamenhas os deportaram para a Colômbia, forçando-os a repetir a jornada.

Ramirez chegou a Ciudad Juárez há cerca de três semanas e centenas de requerentes de asilo estão à sua frente na fila. Mas ele continua confiante de que está perto de alcançar seu sonho. "Eu quase alcancei meu objetivo, meu sonho americano", disse. / EFE e REUTERS

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